16 de novembro de 2010

Jack Flash: Dilúvio





Com todas as calças apertadas, ele sabe que não é mais o mesmo. Enquanto isso, ratos surtam dentro da sarjeta. A vontade de defecar faz com que ele, forçadamente, se levante mais cedo. “Maldita bosta a evacuar nas horas impróprias!” Após sonhar, ele relembra de toda a trajetória em espiral que os seus pensamentos percorreram durante a noite. São duas horas da manhã. Já era hora mesmo de despertar.

As ruas estão todas vazias ao longo dos bairros por onde se quer olhar. No centro ferve a confluência de pênis desinibidos e vaginas recalcadas loucas para dar. Nesses momentos, álcool e drogas ajudam a burlar a nefasta do retardamento do prazer ao qual todos nós fomos mecanizados. Narcóticos! O idioma prediletos dos escritores californianos para se falar de algo. Burroughs, Ginsberg, Kerouac e até mesmo Bukowski traçaram o mesmo retrato de várias cidades. Donzelas disformes! O sexo é dois animais tentando trocar de corpo.

“Quando sozinhos, seguimos a marcha para a guerra. Acompanhados, estende-se logo a bandeira branca. No celinho da bicicleta, como minha piroca gostaria de ser o pistão para esfregar no cú daquela “velha”. Mas fazer o que quando a auto estima está amarrada ao pé de uma maldita cadeira igual a um bebê elefante sendo adestrado? Nasça ou passe sua vida inteira almejando ser.” Então, logo ele pensa em pra que ter passado a vida inteira lendo livros de merda. Só pra ter a certeza de que o que ele contemplava realmente eram as sombras? Pois bem! Mordeu-se na língua, arrancou um pedaço da maça e agora não é mais capaz de resistir as tentações de Eva.

Sentando na cama, olhando e sendo observado em volta por tudo, um ventilador novo não lhe vale de nada. Faz mais barulho do que vento e sempre acaba o vencendo pelo cansaço. O som das cambaleantes hélices bêbadas pouco a pouco vai gerando na consciência uma espécie de transe hipnótico. Dorme e acorda permutando por entre dias em um constante presente, cujo agora, tenta ignorar qualquer nexo com o passado. Mas rejeitando os resultados e lutando contra uma sine qua non que insiste em o pôr para baixo, não se torna impossível achar uma merda estar vivo nessas horas. Encerra-se o silêncio. Tampam-se os ouvidos, pois é preciso desabafar.

Ao confundir o dia com a noite, a camiseta preta não revela a mancha de sangue. A cor preta emagrece. Principalmente em um derramamento de hemoglobina. Tudo começou após duas garrafas de Old Barr. Sentado do lado errado, contra o vento, o carro vermelho mais parecia um relógio. É sábado à noite, o dia predileto para as prostitutas fazerem a barba. Dentro do banheiro, na espelunca de qualquer bar, do outro lado do espelho, ele observa uma espécie de felicidade que não é capaz de alcançar. Pura nitroglicerina óssea cartilaginosa! No imundo cômodo de mármore vizinho, um viciado paraplégico filho da puta que parece não ter ossos, na hora de urinar, a paralisia infantil faz o pênis do invertebrado vomitar.

Por entre a parte podre da cidade, no câncer do município, ele segue por calçadas onde milhões de prostitutas já pisaram e, no momento, só deus sabe onde seu pau irá enfiar. A cidade já não é mais a mesma. No céu, trovões artificiais emitem relâmpagos a cada meia hora. No fundo vermelho do inferno celeste, nuvens de carbono exalam a enxofre. Ao cruzar por uma ruela imunda e abandonada onde viciados fizeram ninhos, o carro de polícia desmanchado lembra a velha e inútil segurança pública de outras datas.

São torres e edifícios com mais de cem metros imersos dentro da água à lembrar com as pontas icebergs. Nesta decadente paisagem urbana surreal, Salvador Dalí teria inveja. Subindo a rua principal adiante, tudo é harmonicamente desorganizado, bagunçado, enquanto lojas são aleatoriamente saqueadas com os tons da probabilidade randômico de um dadaísmo do acaso. Em frente a ele, uma criança lhe aparece com uma arma.

O corpo, recém-novo da última ressaca, ainda lhe dói como o de um bebê que acabará de chegar ao mundo. A forte chuva cai enquanto ele treme todinho ao som dos toques de piano que cada gota faz sobre a epiderme. No velho néon multicolorido dos letreiros das lojas onde um dia habitaram as calçadas principais, hoje, não se ver mais nada. Os postes não acendem. Com o tremor da ventania, dois velhos fios de energia semimortos constantemente se enamoram no instante em que seguem a direção contraria. Quanto a isso, faíscas caem do céu.

Abaixo de um semáforo de três olhos, continua a criança. No meio da rua onde está, a água já atinge o joelho. Ratos surfam em sua direção. Enquanto a ventania realiza o namoro acrobático dos fios descascados, como numa desfibrilização, o semáforo tentar dizer algo. Ele vai calmamente em direção a criança, fantasmas rodam a memória. Questiona se ele já desenvolveu força o suficiente para disparar a arma, mas opto em ter cautela.
Em uma espécie de Hollywood de outras eras, perdido naquelas ruas corrompidas cheias de animais mortos, ele espera como se fosse um louco... Ao longe, na metade do percurso, a criança grita: “Você nunca deveria ter vindo até aqui!” Mas ele finge ignorar.

Todas as vadias de plantão põem suas mãos para o alto e acenam para ele como se não se importassem. Elas o encontram e o enganam. Dizem que ele é o melhor que já viram. Mas ele nunca deveria ter acreditado. Daqui, os outros olham pra ele de maneira repugnante.

Ele estava no muro, se sentindo com dez pés de altura enquanto todos os vermes fumavam cigarros na Avenida Santa Mônica. Essa era a página da frente. Essa é a nova era. Enquanto, todas as vadias põem suas mãos para o alto e acenam para ele como se não se importassem.

Todos os vermes fumando cigarros na Avenida 27 St. Todas as cachorras põem suas mãos para o alto e dão adeus para ele como se não se importassem. Pessoas impostoras vêm para rezar. Olhos sobre todos eles implorando pra ficar. Pessoas falsas vêm para rezar.

As linhas na carta dizem: Todos os vermes fumando cigarros nas avenidas Santas. Todos os vermes fumando cigarros na avenida do boquete.
Todos os vermes fumando cigarros na Hollywood de outra época. E ele nunca deveria ter acreditado. Nunca deveria ter vindo.

Ao chegar perto do menino, antes que o braço se estenda plenamente em direção a arma, o canhão dispara: “BOOM!” Cerram-se os olhos, não se sentem mais as gotas de água, a criança foge. Lixos começam a desfilar na enchente por entre os batentes das calçadas mais baixas. Instantes depois, ele acorda. Não se sabe se vivo ou morto, de um sonho ou dentro de outro, apenas ele acorda. E como Novalis diria, com uma flor azul por entre os braços.



Ricardo Magno



10 de novembro de 2010

Gato-Preto





Através de uma silhueta que mais parece com os rascunhos de um Tim Burton, a carcaça chega a se confundir com a noite. Onde é escuro, ele veste a escuridão. E foi assim que sempre seguiu a vida como um personagem gótico de animação gráfica.

O filho bastardo de duas barrigadas, irmão gêmeo de uma gata siamesa oriundo de uma gestação bi vitelina, assim ele se fazia como o Cavaleiro de Ghotam no quintal de minha casa.

Rabo torto, destino quebrado. Retornava todas as noites cada vez com menos pêlos nas costas. Frequentava festas que não era convidado, se alimentava de comida sempre requentada, fez amizade com o outro lado, e por isso acabou ficando marcado pelo resto dos gatos.

Nasceu sabendo mentir, roubar e enganar. Não andava no chão porque se não o cachorro o pegava. Não andava por sobre o muro porque se não os demais gatos o rechaçavam. Era o mais novo do bando e mesmo assim, também era o mais humilhado.

A irmã mais nova era a única que o respeitava e obedecia a ordem natural de uma tal de hierarquia felina. Dava licença para ele passar sempre que eles poderiam disputar a comida... E cedo morreu. Por ironia, intoxicada por um alimento que eles não puderam disputar.

Agora o coração do preto estava em negrito. Dormia em cima das latas, descansava sobre a interseção de um pedaço de madeira na caixa d’ água. E começou, cada vez mais e com mais periodicidade, a se envolver em tremendas discussões que levantavam as telhas da casa. Mas foi em uma overdose qualquer, andando por qualquer lugar, na companhia dos gatunos mais nefastos, que ele errou o passo, caiu do galho, e se não fosse o pedaço de pão com manteiga que ele andava amarrado nas costas, dessa não teria escapado.


Ricardo Magno




Arthur Azevedo by Overmundo

Nascido no Maranhão, foi no Rio de Janeiro que se consolidou como jornalista, contista, poeta, crítico teatral e dramaturgo. Foi continuador de Martins Pena e França Junior, fez sucesso escrevendo para o Teatro de Revista e deixou duas grandes obras-primas da comédia de costumes brasileira: Capital Federal (1897) e O Mambembe.
Suas peças retratavam o cotidiano da vida carioca e os hábitos da capital: suas histórias exploravam as infidelidades conjugais, os namoros, as relações de família e tudo o mais que se passava nas ruas e na vida do Rio de Janeiro. Com um extraordinário frescor, suas peças ainda funcionam nos palcos até hoje pela graça e pela agudez que retratam as situações do cotidiano.
Homem de teatro foi um admirável batalhador do movimento cênico. Consta na Wikipédia: Escreveu cerca de duzentas peças para teatro e tentou fazer surgir o teatro nacional, incentivando a encenação de obras brasileiras. Como diretor do Teatro João Caetano, no Rio, encenou quinze originais brasileiros em menos de três meses.
Lutou pela construção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, obra que não viu inaugurar.
Ocupou a cadeira 29, cujo patrono é Martins Pena, da Academia Brasileira de Letras.
Em 1903 escreveu uma espécie de epitáfio:
“Quando eu morrer, não deixarei meu pobre nome ligado a nenhum livro, ninguém citará um verso meu, uma frase que me saísse do cérebro; mas com certeza hão de dizer: Ele amava o teatro, e este epitáfio moral é bastante, creiam, para a minha bem-aventurança eterna.”
Morreu em outubro de 1908, no Rio de Janeiro.
Fecham-se as cortinas.
Aplausos, por favor.

5 de novembro de 2010

Pedro Cem




Nascido no interior do Nordeste, menino forte e sagaz, logo Pedro Cem rasgou o sertão e o agreste escrevendo a sua história. Durante o dia, corria atrás de pipira, fazia histeria no quintal alheio. À noite, brincava de morto - vivo com os sonhos dos outros ao contar os vintes do céu em que cada estrela representava a sua ambição. 

Cresceu! Virou gente grande. E foi trabalhar na única mercearia da cidade. Pobre tanto quanto os indicadores sociais que mal ele conhecia, ficava de pé e vazio quase todos os dias. Quando com 16 anos ele arranjou um trabalho na seção de perfumaria digna das tabacarias que imperavam naquela época, nem hesitou diante das lamentações da mãe ao ver o filho mais velho recusar a oportunidade.

Desde garoto, Cem tinha no peito o desejo sedente de seguir rumo em direção à cidade. Sentia profundamente que caçar, limpar o curral e jogar milho para as galinhas não faziam parte da sua realidade. E a mesma muda de roupa que sujava durante o dia era a mesma que a mãe lavava cuidadosamente durante a noite, para ele trajar como se fosse um vestido de gala enquanto na perfumaria os vendedores mais velhos tripudiavam a sua miséria.

O suar de seu pai escorria pelo rosto de todos os filhos. Há muito Pedro matava a sede com a única e mesma saliva. E vez por outro, quando voltava do almoço cambaleando, os amigos da loja já sabiam de cara o que faltava para o pobre diabo. Sem pensar, logo lhe mandavam para o ambulatório levar injeção de vitamina para suprir o arroz e o feijão que geralmente ele não tinha em casa. Dos nove irmãos, ele era o quarto mais velho e fazia questão de comer somente depois que os mais novos haviam se saciado. A comida era sempre tão pouca que os raros grãos de feijão se perdiam na vastidão daquelas bocas que mal tinham dentes trocados.

Perdeu a conta de quantas vezes dormiu ouvindo foguetes sem saber o que era a festa da virada de ano. De tanto tomar no cú aprendeu a andar com o rabo encostado na parede. Dos míseros quilos da mocidade, a cada ano seu corpo foi tomando mais forma. Lá se sabe como e porquê, virou presidente do grêmio estudantil de sua escola. Fazia festas, era respeitado. Mas, pela hombridade de chefe da casa e a calamidade de sua família, desviou alguns trocados da tesouraria até conseguir sobrepor a família acima da linha da miséria, forrar e prolongar com mais alguns cômodos, os velhos cantos da casa. À noite, na hora de rezar, pedia perdão para deus, pois sabia que o furto era por uma justa causa.

Quando a família se mudou para a cidade, aos 18 anos ele já era o mais novo gerente que aquela tabacaria já havia tido. E quando quebrou uma caixa cheia de perfumes recém-chegados, nem deu para ficar preocupado. Ele tinha uma meta e visualizava-a todas as vezes que voltava para casa e sofria na pele todas as necessidades que sua grande família ainda passava.

Quando percebeu que não havia mais nada a se fazer, não tinha mais espaço para crescer, resolveram mudar de ares. O pai, que foi primeiro, de cara logo deu um jeito de matar a saudade dando umas namoradinhas. Quando toda a família veio o patriarca não queria mais nada com eles.

O irmão mais velho casou. As duas irmãs subseqüentes construíram família mesmo antes da partida do interior. E lá mesmo ficaram. E Pedro Cem, agora o mais velho, aos 25 anos de idade, mal sabia o que era ter uma namorada. Chegava faminto do trabalho, e quando tinha sorte do dono da quitanda vender fiado, rachava um ovo em seis partes enquanto via a mãe de longe passando fome se confortar por ver os filhos se alimentarem em mais um dia de vida em que deus não foi lhes visitarem. Por isso é que Pedro Cem, de hábito, só faz o prato depois do último.

Na cidade grande conseguiu estudar até onde pôde. Trabalhou todos os dias até o sol raiar. Obteve respeito, comprou mercearia em local privilegiado no centro da cidade. Aproveitou a expansão do município e foi crescendo junto com ele. Ingênuo e ansioso para recuperar o tempo perdido pelas dificuldades, distraiu-se algumas vezes e acabou perdendo algumas oportunidades. Mas quando a derradeira apareceu, soube aproveitar e fazer jus aos anos de martírio.

Logo passou a ser o ponto de apoio da sua casa. Pai, mãe, irmãos e sobrinhos. Todos o tinham como exemplo. Homem inteligente, embora pouco estudado; conheceu mulher mais nova, de família humilde, mas boa. Bem criada! Não pensou duas vezes antes de casar. A essa altura já tinha 35 anos, era rico, bem sucedido. Pagava os funcionários públicos de toda a cidade e não tinha um policial que não reconhecesse seu sobrenome. 

Pedro Cem! Para cada objeto, ele tinha cem!

Os anos iam se passando enquanto ele aumentava a fortuna sem se preocupar com os golpes do acaso. Teve filho. Inventou sobrenome importante e fez de tudo para essa criança não carregar os genes que cicatrizavam sua alma. E só se alimentava depois que seu filho já havia se alimentado. Queria ter a certeza de que o menino estava farto.

Sofreu acidente, quebrou a perna. Ficou mais de dois anos sem andar. A medicina dizia: nunca mais! Enquanto sua mãe rezava e o medicava a base de fitoterapia. Por força do destino impugnado pelas novas circunstâncias, a mulher aprendeu a dirigir o carro. E agora era ela quem levava todos os dias a sua criança para o colégio. Pedro Cem enfrentava uma nova batalha: voltar a ficar de pé sozinho.

Queimaram-se fazendas, afundaram-se os barcos. E toda a riqueza de Pedro Cem retornava para o brejo. A ruína e a derrocada o consumia todas as noites lhe dando força até calçar os tornozelos com glória e quase por um milagre ele retornar a posição de homo sapiens. Só que agora ele era o Pedro Cem que já teve e hoje não tem. Quem quiser dá uma esmola, que dê. Se não quiser ele também não fará empenho. Orgulhoso por já ter tido e feliz por ainda poder ter.



Ricardo Magno



4 de novembro de 2010

KAHLO IKARi: Amigo do sol e amigo da lua




Com um estilo de barba à lá Kahlo Ikari, os óculos tortos distorcem a cara. E mesmo sendo somente um, eles devem ser citados todas as vezes no plural. Quem tem cara provavelmente não é gente. Mas eu estou mais para lá de um animal totalmente Full Metal.

Têm gente que está longe querendo ficar perto. Têm gente de perto querendo ir para bem longe. E têm gente mais perto do que imagina se achando distante. Vai lá entender como é que são as coisas!

Domicílios inóspitos nas margens de rodovias intrafegáveis enquanto a logosofia me manda um e-mail tentando explicar o Dia de Finados. Por que é que a realidade tem que ser sempre o lado ruim? Por que é que a felicidade de poucos não conta muito nessas horas? Há de se pensar.

Dentro de um estilo de vida humanóide e ainda ordinário, onde as válvulas de escape não são capazes de suprir nem si quer as necessidades primárias, não fica muito difícil, vez por outra, eu me sentir como um Kick Ass.

Tem gente que é muito menos do que aparenta ser. Tem quem que quer ser muito mais do que realmente é. Mas eu pergunto a vós: Vós já vistes em algum caso o vazio preencher alguma coisa? É claro que não! Eles não passam de um Kahlo Ikari.

Pouco importa qual seja a profissão que tu sigas. O que não dá dinheiro mesmo e de jeito nenhum é apenas a BU-RRI-CE!!! Enquanto isso, prefiro observar o lago que se forma no teto do universo sempre que estou de cabeça para baixo todas as vezes em que me deito de cara para cima. É somente nesta hora que meu cérebro é capaz de parar de pensar, ou, ao menos pensar que parou, à medida em que o expiral dos maiores anseios vai tomando conta dos sonhos.

Há rumores de chuva lá fora. Mas enquanto não cair nenhuma gota, não adianta ventar e muito menos relampejar. São apenas rumores. E, ao fazer um pequeno trocadilho com o onanismo, sempre guardo o melhor de mim para mim mesmo.



Ricardo Magno


29 de outubro de 2010

Inquilinos





Ela faz samba com as batidas de meu coração e sapateia sobre o meu miocárdio. Assim logo passa a semana inteira enquanto ela não para de me fazer essa besteira. Por isso é que o carro passa e o cachorro nem quer ir mais atrás.

A flor compensa no perfume a falta de sabor. O coração de uma mulher é cheio de camadas. E ai do homem que conseguir encontrar a infinitésima parte! Mas a cada dia que passa menos importam os obstáculos da caminhada. A cada instante que passa, aperto o passo e seguro mais firme na mão de deus, pois sinto que quase estou chegando lá.

Agora fica mais fácil compreender claramente os desígnios do pai. Agora prevejo a hora exata em que irei ser castigado. E, enquanto ele me bate, percebo pelo semblante de sua face que dói mais nele mesmo do que em mim.

Estou disposto a tudo, a ir no mais distante dos mundos, aprender o idioma dos loucos só para falar o que ninguém entendendo, mas somente dizer a verdade. Lanço mão fora das subjetividades e prossigo firme pela marcha da morte. E se é para um fim que aqui estou, então o fim também deve estar aqui por minha causa.

Nem sempre a casa é velha quando é uma velha é a dona da casa. Mas esta é! Foi assim que a conheci pelo nome: quinquilharias! Mais parecendo um título dos contos do meu querido amigo Machado.
A casa é velha, mas é nova para quem está chegando nela agora. História sobre história. Um ciclo termina sempre que outro inicia. Mais um ciclo se fechou e outro abre-se diante dos olhos. A linha do tempo se esvai e começam-se novas ações dentro das velhas. As paredes protegem muito mais do que os limites da casa. Em um tijolo cabe mais lembranças do que a cavidade dos quatro cantos de um coração.


Ricardo Magno

Luna 90




Se eu realmente gosto de ti, tu nunca irás saber! Essa será a duvido que enquanto eu estiver vivo também perdurara em teu singelo coração. Do mais, os dias em que pior me sinto são os melhores para se fazer rabiscos em algumas páginas.

Bebedeira sexta e sábado, o final de semana foi agitado. Agora, a sensação que restou se resume a um medo misturado com ressentimento. O bar, depois o pagode. A ninfetinha de 18 anos, e depois a volta de lancha. Tudo novo e tudo velho aqui bem dentro de mim. Meus primos não valem nada. Juntos, sempre nos metemos em grandes cachorradas. É o mesmo que juntar a fome com a vontade de comer. E nós comemos mesmo!

O céu bem do alto de um barco. O rio a correr por entre as nadadeiras de um motor 90 em que nada pode ser mais lindo do que observar a ponte Felipe Gregory, só que do ângulo de baixo. Agora, só o que mais quero é apertar bem forte as abas da rede e me esconder bem no fundo dela enquanto a escuridão de meu quarto, pouco a pouco, vai nos dando um belo abraço.

Quando fecho os olhos me sinto salvo de tudo. A escuridão sempre me protege das coisas que estão aí fora. Enquanto fotografias não condizem com a realidade, eu escrevo para saciar os bisbilhoteiros de minha alma. Pois somos mais sinceros quando dizemos do que quando mostramos.

Meu coração bate no compasso do anúncio de novas descobertas. Parece que algo está prestes a acontecer. E se acontecer, só espero que ela não vá embora. Dessa vez, espero de mim mesmo poder ser diferente. Pois, se insisto em continuar duvidando do que as pessoas sentem, de agora em diante, posso ao menos ter mais convicção em relação ao que sinto. Não preciso mais pôr ninguém à prova se antes mesmo de tudo eu ter sido provado.

Uma mistura de vazio e solidão sempre me acompanham para eu não esquecer quem sou. Do convívio aprendi a me passar de fingido e agora consigo sorrir com eles. Mal acompanhado, sempre estaremos sozinhos. Logo, logo chegamos em mais um final de semana. Com este, terei que mudar de casa. Tão familiarizado com o velho que o novo até me bota medo. Tão acomodado com a rotina que me sinto até meio tenso com os novos possibilismos da alma. Agora chega de viagens passageiras. No rosto de alguém, espero logo, logo poder me reencontrar de verdade.



Ricardo Magno

26 de outubro de 2010

Casa Nova






Todas as vezes em que se faz uma pesquisa no Google tem que aparecer a porra de uma cobra, mulher pelada ( o que não é tão mau assim) e a merda de um defunto todo esfacelado. Oh "pesquisazinha" ruim do caralhooo!






Mas uma vez estava tudo em minhas mãos e eu não fiz. Eu sabia de tudo! Conhecia toda a história, e mesmo assim, não fiz! Mudar de casa mexe muito com os meus ânimos. E quando o cachorro sair para a rua, fico temendo dele confundir os endereços, embora eu saiba que ele me segue para qualquer lugar. Mudar de casa mexe com meus ânimos porque eu ainda não sei se vai melhorar ou piorar. O jeito é mais uma vez trazer dentro do peito toda a vizinhança de uma vida inteira comigo. Pois é isto o que sempre faço. Mudo de compasso, mas o estado fica!






Nessas horas dá até um gigantesca vontade de chorar. De aparentar ser alguém que não sou. De ser mais forte do que todos pensam que sou mesmo desconhecendo a minha verdadeira força. Mas, não! Eu não sou tão hipócrita assim. Quero que sempre que me olhem todos vejam quem realmente sou. Não preciso de joguinhos e muito menos ficar enrustindo histórias. Olhem para mim e vejam bem fundo nos meus olhos! Pois será de lá que daqui a alguns dias começarão a irradiar milhões de raios de glórias.






Que diferença faz se vai ficar mais longe ou mais perto se aqui dentro todas as distâncias são iguais? Então. Tanto faz! A verdade é que eu só irei parar quando me cansar. Do mais, continuarei fazendo as mesmas coisas. Enquanto eu achar que suporto, será sempre assim. Mas é somente nessas horas em que posso sentir a mais absoluta certeza de que estou ficando velho. Quando o presente vira passado enquanto o tempo escapa pelos dedos mesmo a gente não querendo que ele vá embora.





Ricardo Magno

20 de outubro de 2010

O Artista



Eu sou o artista! Faço a obra e vós limpais a merda. No coração de uma mulher habitam várias camadas, e ai do homem que conseguir encontrar a infinitésima parte! Pois, se meu cabelo curto é um disfarce, tudo o mais em mim não passa da indumentária.

Da janela de vidro no interior de um carro, eu vejo a subjetividade do mundo externo que corre à medida que seguimos mais rápido. Enquanto isso, apenas tenho que seguir meu caminho antes que ele também vá embora. É somente isto e nada mais.

Por mais que não consiga sentir nada, sei que há muitas pessoas em minha volta. E dia após dia vou me tornando menos humano. Agora, cada vez mais consigo observar a humanidade de soslaio. Se fosse possível resumir o momento ao expressar tudo o que se sente pelo intermédio de uma palavra, eu diria "merda".

Tenho mais apego ao que sinto do que pelas pessoas por quem sinto. Quando a barra de rolagem cerra é sinal de que a história se repete. É tão impressionante que nem chega a me impressionar mais. Por onde passo vejo rostos sorridentes em pessoas que não sabem que estão mortas.

Um de meus amigos quase parte. E com ele, a metade da vida das pessoas que também fazem parte da vida dele. Mas o chato não é isso. O triste mesmo é ter consciência da vulnerabilidade ao enxergar dentro dos olhos daqueles que já foram embora. Eles são fundos!

De agora em diante não cabe mais a mim pensar em nenhuma coisa dessa. Eu apenas tenho que seguir o caminho. As vilezas e futilezas do acaso tentam distrair minha atenção. Mas distração mesmo eu só encontro em uma vida inteira que me serve de engodo para a grande jornada. Pois estar vivo já é um luxo e eu não posso me dar mais um obtendo uma existência cotidiana.

Vós podeis brincar em paz enquanto sou eu quem faz sentinela. Não se preocupem com nada disso, pois foi a mim incumbido tais verdades. Dancem, namorem e casem enquanto eu acerto o alvo.




Ricardo Magno

18 de outubro de 2010

Cartas

Nunca consegui avaliar com o devido grau de precisão até que ponto os motivos são verdadeiros e até que ponto eles apenas me servem de desculpa. Mas em meio a tudo isso, agradeço aos amigos que se dizem verdadeiros! Embora o ser humano não necessite tanto assim de verdades, o calor humano às vezes nos basta.

Quando não é o meu time que está jogando, faço questão de sempre torcer pelo time que está precisando. E não é que eu seja um cara tão humanitário, pois dentro de mim habita um pouco de sarcasmo. Só que, desde muito cedo eu aprendi que na tragédia dos comuns todos são prejudicados.

O que menos desejo no mundo é fazer alguém sofrer. E justamente agora, na hora em que tenho que confessar que sou um cara meio complicado. No entanto, sinto que a única coisa que posso fazer é te mandar algumas cartas.

Somente pelo simples fato de decidir não fazer nada, mobilizam-se centenas de células nervosas. Pois a lei da inércia devia se adequar às moções internas. Sempre nutri um receio por novas experiências. E nunca ocultei esse temor de ninguém! Talvez seja porque minha glândula hipófise esteja meio desregulada, com adrenalina correndo nas veias 24 hs, fazendo com que eu me sinta sempre em situação de risco.

E quanto mais busco me conhecer é que percebo que não sei nada. Quanto mais busco me dominar é que entendo o quanto pode fazer falta as mãos na direção de um carro desgovernado. Quanto mais tento me controlar mais compreendo o quanto minha presença despretensiosa pode ser nociva e desnecessária. Não tirando uma vírgula do que Nietzsche disse: “Para a tarefa da reavaliação dos valores seriam necessárias mais faculdades do que jamais existiu em um só indivíduo... E nisso pode-se manifestar uma grande inteligência”.

Do mais, se eu continuar assim, a única coisa que pode acontecer comigo, é eu morrer de TAS.

TAS: Transtorno afetivo sazonal


Ricardo Magno

Ao vento

Conheço uma pessoa de verdade à medida que ela permite ao seu ego falar mais alto. É nesta rara hora em que desvendo todos os seus pontos fracos.

Somente através de uma discussão pode se notar com devida proporção o abismo existente entre nós e as demais pessoas. E para mim, isso sempre me vale de algo.

Gostaria de falar de amor sem ser piegas, expressar o que sinto sem ser meloso, mas como fazer isso se o amor é pura pieguice? Sendo assim. A partir de agora pouco me importam os instantes das horas que estiver ao teu lado, pois uma eternidade seria pouco para tanta graça.

Enquanto a maiorias das pessoas dão ênfase demais para o agora, eu e minha imensa perspectiva de eternidade já estamos se preocupando em fazer nossa cama nos berços da posteridade.

Em meio à depressão, me sinto inacessível, totalmente distante de todos como se ninguém me pertencesse. E se sentir assim é péssimo, é uma das piores sensações da minha vida. Que deus queira que não volte nunca mais! Ainda tendo que contar com a incompreensão dos outros, o que faz tudo se tornar pior.

“Teu menor esforço sempre será minha maior felicidade.” Eu até gostava dessa frase. Na boca de outras pessoas eu até apreciava esta frase. Mas agora acho que ela ficou meio fora de modo.




Ricardo Magno


Alma Imatura

As pessoas não gostam de ler os clássicos enquanto eu nunca me perdoaria se não tivesse lido O príncipe. É que também amo Fernando Pessoa, e mesmo existindo em épocas diferentes, sei que de alguma forma nossas almas estão conectadas.

Da simples idéia de um dia te pertencer, extraio a sensação de me sentir muito bem como se somente agora estivesse encontrado o meu verdadeiro lugar.

Se tu me deixares. Se realmente agora fores embora... Então aproveitarei este momento para ler um livro e somente assim descobrir algumas verdades.

Ao ser solicito, não há obrigação nenhuma no que diz respeito à reciprocidade. Mas não deixa de ser uma bela oportunidade para que conheçamos as pessoas de verdade.

Nosso fogo queimou a minha cama e fez cinzas de um passado indesejado. Ao teu lado me sinto a cada dia mais renovado. É que a minha infância só irá começar aos trinta anos...

Juntos e sozinhos, te fazer graça ao conhecer tua verdadeira face de prazer. Porque sexo se faz com a alma e não com o corpo, enquanto o homem é maduro para consolidar o ato e nem sempre para entendê-lo de verdade.


Ricardo Magno

13 de outubro de 2010

A quem deus pode confiar

Como é que eu posso confiar numa pessoa se eu nem sei se ela existe? Mas “deus” sabe o quanto minha dúvida é cruel!

Uma cidade completamente ao contrário de seres totalmente diferentes. Como eu posso entregar meu coração para alguém que eu nem sei se é exatamente igual a mim?

Para meus amigos tudo isso pode ser hilário. Mas para mim isso é uma dúvida dolorosa. Esse é o dom que tenho para me meter em situações extraordinárias.

Do consolo que me resta, apenas acredito que tudo isso não passa de mais uma das muitas situações onde fui um pobre capataz.

Quero deixar de crer no que não existe porque sei que o que não posso ver é pura surrealidade. Largar desse sonho infantil, dessa coisa que nunca será verdade.

Mas “deus” sabe o quanto sou um miserável sonhando com seres do acaso. Nunca terei minhas maiores dádivas, pois são elas que trarão minhas desgraças.

Ela brincou comigo a semana inteira, sem saber que eu levava tudo a sério. Fez da minha vida um inferno e agora sou eu que tenho que me libertar desses rastros.

A esperança que guardo é a mesma que me mata, pois todos me olham e só vêem desgraças.

Meu destino está fadado: eu, meus pais, cachorro e gatos. Não pensem que isso me faz infeliz. Só peço um tempo para aceitar os trocados.

Ricardo Magno

A cara do coração




Meu céu vai mudar de cor
Meu teto vai mudar de casa
Minhas mudas mudarão de roupas
E meus lugares ficarão vazios

Minhas roupas mudarão de corpos
Meus copos mudarão de bocas
Minhas bocas mudarão os beijos
E meus espaços se tornarão impreenchíveis

Minha casa vai mudar de sala
Minhas unhas vão mudar os cornos
Meu gato vai mudar de dono
E os buracos se tornarão incomensuráveis

Meu relógio vai mudar de tempo
Meu coração vai trocar de batida
As bebidas serão agora mexidas
E a porta ficará sempre aberta

Minha vida mudará de recordações
Os pedaços trocarão de partes
A velocidade mudará de marcha
E meu corpo terá uma nova alma

A vida mudará de gosto
O gosto mudará de sabor
O sabor trocará de paladar
E a língua se confundirá com as pálpebras

O início mudará de fim
O fim fará um novo começo
E o meio não será mais a metade do ciclo
Enquanto o passado se fará como o prefácio de uma nova jornada


Ricardo Magno

Doce amor




São em todas as noites quando estou sozinho, enquanto músicas lindas invadem minha consciência e os pensamentos mais belos dominam minha mente. É exatamente nessas horas em que ninguém pode me ver, é que sou a pessoa mais feliz do mundo. Trancado no meu mundo, fazendo silêncio no ouvido dos outros, apenas um copo com água batiza minha alma.
Minha felicidade é impartilhável! Pois é quando todos os moribundos que conheço dormem, é que me mantenho na noite a dar enormes gargalhadas.
Sabem o que é está todo fudido e mesmo assim continuar tentando agradar as pessoas? Não sabem! Pois é, assim estou. Mesmo na merda estendendo a mão para os que estão na bosta.
Agora só o que me faltava era ter um computador politicamente correto. Enquanto escrevo palavrões, ele não tira esse sublinhado vermelho do caralho. Insensível, não ignora meus desabafos.
Até agora, as coisas ainda não fugirão à risca. Pois continua tudo indo muito mal enquanto vejo idiotas com as bocas presas em paus.
A coisa mais estúpida que já quis fazer em toda minha vida foi se atrelar a outra pessoa e desejar que ela realmente fosse minha. A coisa mais burra que já inventaram durante toda a existência do universo é pegar dois seres acéfalos e dizer que nasceram para viver um com o outro.
De que me vale outra pessoa se quando mais preciso ninguém pode me ajudar? De que me vale outra pessoa se quando mais grito de dor ninguém pode escutar? De que me vale outra pessoa se nas horas em que estou mais fudido ainda tenho que ajudá-la? De que me vale crer em um deus se as coisas que peço, sei que ele não pode me dar? Vão se foder bando de merdas! E minha vontade é que eu também vá junto.
A autodestruição consiste no processo de desilusão e formação de novas idéias. Pois o que não mata, fortalece!
É um projeto muito ambicioso tentar fundir dois corpos para formar uma alma.
O que mais desejaria era um sinal de merda qualquer me provando estar no caminho correto e cercado das pessoas certas. No entanto, sei que esse sinal nunca aparecerá.
Das virtudes mais belas, ou os outros vêem ou aqueles que as têm não podem dizer nada.

Ricardo Magno