7 de julho de 2010

O Canto de Ossian

Nossa imaginação levada pela sua própria natureza a exaltar-se e ainda excitada pelas figuras quiméricas que lhe oferece a poesia, dá corpo a uma escala de seres onde ocupamos sempre um lugar ínfimo. Tudo quanto se acha fora de nós parece mais belo e todos os homens mais perfeitos do que nós.


E isto é natural porque sentimos em demasiado as nossas imperfeições e os outros sempre parecem possuir precisamente aquilo que nos falta. Em conseqüência, nós lhes acrescentamos tudo quanto está em nós mesmos, e para coroar a obra, concedermos-lhes também certa facilidade miraculosa que exclui toda idéia de esforço.


E eis esse bem-aventurado mortal convertido num conjunto de perfeições por nós mesmos criadas. Ao contrário, quando perseveramos em nossos próprios esforços, apesar das nossas fraquezas e dificuldades, progredimos mais lentamente na porfia onde outros empregam a vela e o remo... Em suma, a gente sente o que vale quando alcança os outros na reta, ou mesmo os ultrapassa.


Essa gente torna a vida desagradável para eles próprios e para os outros. Mas é preciso resignar se a isso como o viajante se resigna ao ter de transpor uma montanha. É verdade que o caminho seria mais curto e mais cômodo se não fosse à montanha; mas a montanha existe e é preciso seguir viagem! No entanto, desconheço alguém que tenha conseguido como ele, enriquecer o espírito abrangendo uma vastidão de assuntos sem sacrificar a sua espantosa atividade na vida ordinária.


As coisas sempre vêm em dobro quase nunca que esperamos algo em troca. Escrevendo para viver e vivendo para escrever, gosto dos pontos e das vírgulas muito direitinhos em seus lugares. Sou um inimigo encarniçado de toda transposição; o que, às vezes, me escapa com freqüência. Mas se não cantarem sempre os períodos segundo o ritmo tradicional, lembrando o batuque da barbárie, eles não entendem patavina alguma. Eles! Que só vieram ao mundo para atrapalhar.


Ricardo Magno

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