19 de julho de 2010

Carta engarrafada (para um novo amigo)





Querido amigo! Que vossa senhoria me perdoe à intromissão e a intimidade. Mas antes de me ignorar, permita ao menos que eu me apresente. Me chamo Ricardo Magno Silva Alves, filho de Antônio Alves Pereira Neto e Ana Luiza Pereira da Silva. Estou cursando jornalismo na UFMA e fiz até o quarto período de geografia na UEMA. Tenho 28 anos, solteiro, nordestino orgulhoso de pai e mãe e mais feliz ainda por ser filho deste querido lugar chamada Imperatriz do Maranhão.

Não foi para tomar o vosso tempo que venho digitar este texto. Pelo contrário! Há muito venho acompanhando vosso trabalho, do qual tenho muito orgulho (falo isso do coração porque sou orgulhoso demais para babar as pessoas). Creio que uma das maiores dádivas da vida é poder se tornar um grande homem. “E o nascimento de uma alma é coisa demorada, não é partido ou jazz onde se improvise; não é casa moldada, laje que suba fácil, a natureza da gente não tem que se medir.” Faço do Rappa minhas palavras. Pois para mim, vossa senhoria é um dos mais dignos homens que já pisou nesta terra tão sofrida - após muitas pesquisas e algumas enciclopédias, o senhor melhor do que eu, sabe do que estou falando. Me sinto orgulhoso com todos os vossos feitos, pois sei que de uma grande pessoa não há com o que se preocupar. Admiro-o porque também busco me tornar um grande homem. E este sempre foi o meu objetivo.


“Momentos de resolução necessitam de homens resolutos.”


Desde minha infância, durante toda a minha vida, em meio a uma roda de crianças e no frisson da iniciação jovial da vida amoroso, este foi um sentimento que nunca me abandonou. Nas travessuras de criança, nas desventuras da mocidade e em meio a conversas bobas de adolescente este sempre foi meu desejo oculto quase que inconsciente. À medida que fui amadurecendo, foi para essa inclinação que minha vida se “desgovernou” totalmente. E nunca me coube escolher outra coisa. Como Nietzsche diria, esse é o meu fatalismo da tarefa. Não há escolha quando todos os caminhos nos levam ao mesmo lugar - minha cidade a cima de todas as coisas.
Senhor! Perdoe-me se eu estiver sendo um pouco prolixo. E por mais que este texto possa lhe aparentar ter palavras demais, lhe garanto, com toda a certeza, que ainda não é o bastante para descrever o que se passa dentro de mim no trabalho misterioso de minha alma. Sou contra os resumos, pois eles excluem os detalhes valiosos. Sempre me senti tocado pelas questões sociais, sempre enxerguei a vida pelo prisma das questões políticas e socioeconômicas. Foi por esta afinidade que hoje faço parte de um iniciante grupo de pesquisas na UFMA. Não vejo à hora de Imperatriz desencantar! 

Atualmente, Imperatriz não passa de um corpo sem alma, de um lugar onde as coisas estão sempre prestes a acontecer, mas nada nunca acontece e este espírito reflete sobre a sociedade e nos cidadãos. Afinal, vivemos sob essa égide. Um judiciário que não funciona, um sistema de segurança pública congestionado, uma cultura popular oriunda do nosso folclore regional renegada e escassas políticas públicas com fortes resquícios coronelista - deste “belo” quadro social não poderia sair coisa boa. Mas o pior de tudo é o povo cego. Não cego para a responsabilidade dos outros e sim para os seus próprios deveres. A população vota e através do voto se isenta de qualquer maior responsabilidade com a ordem pública, para depois sair dizendo que somente os políticos é que são ladrões. Como se fazer “gato” na energia não fosse furto, como se subornar o guarda não fosse corrupção ativa. A Teoria da janela quebrada, desenvolvida por Rudolph Giuliani (prefeito de Nova York) e William Braton (chefe de Polícia de Nova York) na década de 90 quando os índices de criminalidade eram altíssimos nos Estados Unidos, afirma que um delito pequeno cometido hoje pode vir a se tornar um grande crime amanhã. Portanto, o certo a fazer é coibir, desde já, qualquer gesto, por mais sutil que seja o sinal delituoso.

É, meu querido! A isto se chama tragédia dos comuns. Todo mundo preocupado com os interesses individuais e esquecendo dos interesses coletivos. Assim, acabam se os salva-vidas e em meio ao conflito de interesses todos morrem afogados.

Uma das correntes de pensamentos socioeconômico que mais me fascina é a Escola de Frankfurt. Nela, Adorno, Horkheimer e Benjamin defendem a idéia de que existe uma relação direta entre evolução espiritual e progresso econômico. Ou seja, quanto mais uma população for instruída melhor será sua qualidade de vida. 

Deixando minha empatia de lado e buscando ser o mais imparcial possível, concordo plenamente com eles.
Senhor! O seu dia chegou e espero que o meu ainda chegue para que eu possa fazer com minhas próprias mãos o melhor por minha cidade. Thomas Hobbes, no Leviatã, afirma que aqueles que acreditam serem capazes de, no poder, fazerem melhor do que aqueles que atualmente estão lá, naturalmente, a tendência é que estas pessoas sigam de encontro ao poder. Pensando bem, acho que há muito tempo meu caminho já foi traçado e, apesar de “não gostar” muito dos políticos, até mesmo porque ainda não vi nenhum exemplo que preste, eu amo a política. O que me faz levar uma das máximas da bíblia ao pé da letra. Justamente aquela que diz que devemos amar o pecador e odiar o pecado. Sei que as pessoas necessitam de referenciais e queira deus que eu seja um deles. 

Amigo! Talvez não soe muito bem ouvir de um “penetra” todas essas baboseiras, afinal de contas, vivemos em um mudo no qual a competitividade e a desconfiança é exaltada em detrimento da cooperação e complacência. Todos se tornam suspeitos até que se prove o contrário. A justiça é quase que um personagem Machadiano.

Nesta semana, um jovem evangélico que conserta aparelhos eletrônicos bateu na minha porta para pedir qualquer coisa, o que fosse! E veja bem meu amigo: a única coisa que pude lhe dar foram roupas velhas. Roupas velhas?! Agora eu me faço constantemente esta pergunta: Como um rapaz igual a mim que tem pretensões de servir a minha comunidade, quando alguém lhe bate a porta só é capaz de lhe dar roupas velhas!?!?! Como resolverei os problemas socioeconômicos de meu município se mal consigo achar soluções para as pendengas financeiras de minha casa? Que belo grande homem de meia tigela estou vindo a me tornar.




Ricardo Magno

1 Comentários:

Juh Salomé de Beauvoir disse...

Acho que eu reconheço, essa imagem e esse título... que falha essa minha, ainda não ter visto..hahahaha.
Ficou (super) massa, Gato!
I love you, "homem resoluto". ;)