19 de julho de 2010

Caminhada

Após mais uma tarde perdida em meio a divagações desiludidas, percebo que a melhor matéria seria o próprio jornal. É que a mancha gráfica por si só já fala. Então me despedi do meu primo e logo me perdi no caminho de casa em meio a neblina fumacenta do cigarro que eu mesmo queimava, pois se o combustível acaba, no caminho mesmo eu faria minha morada.

Acabará de chuviscar. Há algum tempinho já é passado das 20 horas enquanto eu ando e apenas tento descobrir um jeito de aproximar o novo jornalismo da minha realidade, pois Imperatriz é um cú e vive numa outra dimensão bem distante disso. Da casa da minha tia em diante, sigo pela calçada suja, molhada e desnivelada da rua Amazonas e viro a direita na primeira esquina. Logo sinto bater o coração da casa. E a cada passo que dou os pensamentos entram em conflito com as palavras até um fazer do outro sua morada. 

A cada passo que dou a alma se digladia com o corpo até alguém conseguir provar quem é que manda na casa. De longe, já acostumado com esse processo, continuo andando porque sei que o importante é nunca parar. De longe acostumado com esse processo, sei que é assim a mecânica do berçário de minha morada.
Da Bernado Sayão em diante, passam dezenas de carro enquanto absorto não vejo quase nada. Da Bernardo Sayão em diante, acontecem milhares de coisas enquanto eu só vejo karmas. Um felling muito aguçado pra quem ainda não bebeu nada. Porque as ruas que cortam umas as outras também cortam minha alma.

Na sorveteria em plena sexta-feira da noite, duas garotas e um rapaz. Uma sendo mais bela que a outra, provavelmente seja ele quem esteja pagando a rodada, porque algumas coisas mudam enquanto outras são sempre iguais.

Ao caminhar em frente ao Estádio, percebo que meus passos alternados ferem e curam minha alma. Este é o sinal mais iminente de que o processo fora iniciado. E por todas as esquinas que passo, um maldito carro interrompe meu tráfego. Por todos os sinais que cruzo é a luz vermelha que está ligada. Mais uma anunciação sem significado. Só que, enquanto cruzo a Luis Domingues em sentido a Coriolano Milhomem, vejo um golf preto todo “fumezado” no sinal quase que parado. Há! Há essa hora, em plena sexta-feira, provavelmente o cara deve estar indo pra raparigada.

Num chão todo desnivelado, a mais de dois quarteirões não ando na calçada e logo que retorno pra rua, meu pé esquerdo sobre-salta por duas pedras abandonas: meu corpo e minha alma, duas pedras abandonadas! Motos pretas, motos cinzas, um arco-íris de fazer nada a medida que uma moto se aproxima do orelhão da calçada em plena sexta-feira do nada, provavelmente o cara não ligará para a amada. Daí percebo que hoje não é um bom dia pra escrever porque mal consigo terminar uma palavra. Mas continuo porque o importante é não parar e tudo o que deixo pra fazer depois nunca faço.

Eu vejo tudo, tudo me cerca, mas eu não vejo nada! No sinal que me pára, fico com medo de perder as idéias. No meio da Benedito Leite, no translado da Coriolano, vejo o semáforo fechado dela com a Simplicio e um caminhão estacionado como quem não quer nada. Mais ao longe, duas quadras daqui, uma moto passa perpendicularmente e quase que se mata. Mas é só ao chegar em casa é que fecho o desfecho de minha cruzada. Da casa do meu primo até a minha rompi o espaço e o tempo, arrebentei a teoria das cordas e acabei dando a volta no mundo perdido por entre os átomos da alma.

Ultrapassei o bar da esquina, desviei de três sacos de lixo na calçada pra saber que a luz do banheiro tinha sido queimada e hoje a punheta seria no escuro ou a luz de velas.

Ricardo Magno

A lógica dos astros

Todo mundo tem um destino, então porque somente o meu a cartomante não consegue ler? Mesmo as linhas das minhas mãos sendo bem traçadas porque as ciganas não conseguem ver?


Os astros não dizem nada! São simples ostentações do céu. O horóscopo não adivinha o futuro, mas, em meio ao possibilismo das vidas, cria-se uma probabilidade das previsões coincidirem. Peixes fisgados na hora!
E se nós pudéssemos viver um momento várias vezes, então não haveria escolhas, pois as escolhas surgem justamente da impossibilidade de vivenciar os fatos por mais de uma forma. A partir daí, buscamos otimizá-los.


Para os demais que dessa vez não foi à correta, resta à próxima probabilidade e uma hora eles também irão cair. Pura análise combinatória misturada com técnica de gerenciamento de opiniões.


Frases curtas, frases rápidas, sinal de poesia parcelada! Se bem que não é exatamente isso o que escrevo e nem é isso o que quero escrever. Sem essa de rótulos! Deixem-me ser livre pelo máximo de tempo que eu puder, não me sufoquem com os malditos estereótipos, pois sou de qualquer lugar.


Eu conheço o mundo só de ouvir falar e nem sei se um dia quero conhecê-lo. Sem sair de casa, pouco a pouco vou criando uma forte impressão de que não estou perdendo nada.


Festas, farras, pessoas interessantes em lugares exuberantes, quem disse que só assim se aproveita o mundo? Isto tudo serve mais é pra ludibriar! Enquanto as pessoas se manifestam de dentro pra fora, eu me manifesto é de fora pra dentro. E isso não quer dizer que eu não faça nada, pois ao meu modo, aproveito bem mais do que as multidões que ao se preocuparem com o presente, deixam a eternidade de lado.



Ricardo Magno

A história do universo

Eu nunca havia estado aqui, mas é como se eu já estivesse. E não há nenhum lugar no mundo onde eu ainda não tenha ido. Um dia meus vícios me matam. E eu estou falando apenas dos vícios da personalidade; porque o corpo envelhece à medida que a alma rejuvenesce.


De tudo o que faço, trato em pequenas partes das conclusões gerais do que poderia vir a ser o que todos chamam de vida. De tudo o que faço, só estou buscando desenvolver a minha própria teoria do que seria a vida; porque ser inteligente basicamente se trata de criar, entender e desenvolver a própria inteligência. Entender, respeitar e sempre buscar compreender a inteligência alheia.


Estudando lógica pude observar que nem sempre raciocínios válidos nos levam a conclusões verdadeiras, e que nem sempre conclusões verdadeiras advem de raciocínios válidos; mas a verdade, por si só, sustenta a si mesma.


Cidades se tornam conturbadas de acordo com o relacionamento confuso que nós podemos vir a ter com elas. Nuvens em movimento é sempre um sinal de que o universo está conspirando.


Nunca tive medo de cruzar o portal da insanidade só pra ver a alma humana de um ângulo mais próximo; porque foi a mim, como já havia sido para outros poucos homens, exclusivamente destinado está linda e bela jornada.


Então, por favor! Não me venham com teorias fajutas tentando decifrar minha personalidade. E por mais que vós sabeis de algo, logo de cara, vós vos perderíeis na entrada. Sendo assim, continuem enganando bêbados em mesas de bares. Continuem agindo como se fossem robôs paraguaios decorando de cabo a rabo enciclopédias defasadas.


De que vale a capacidade para aquele que não têm força de vontade? De que vale tanta força de vontade onde habita pouquíssima capacidade? Por detrás de cada erro existem milhões de coisas erradas. Por detrás de cada erro existe a semente da vitória. Mas o foda mesmo é quando tudo o que poderia ser uma solução se apresenta como novos problemas. E pela primeira vez na história do universo, verdadeiramente, meu coração quis me abandonar.

Ricardo Magno

Panacéia

Muitas mortes seriam evitadas se os suicidas tivessem sido compreendidos nem que fosse por um só segundo. Isso é o que dá se prender dentro do próprio mundo, bater o martelo acerca dos fatos e criar verdades somente para si. O que é grave aos olhos pode ser insignificante para o mundo, e em apenas uma boa conversa pode se encontrar o remédio para os males de tudo.


Em toda situação de abandono está presente uma tentação e uma chance. A tentação consiste nisto: a pessoa não enfrenta o desamparo e culpa sempre os pais, os irmãos e os outros por seus fracassos enquanto fica esperando a solução vinda da política, do Estado, da loteria e de Deus. Essa atitude esconde a omissão, a falta de iniciativa e a fuga da responsabilidade.


Mas há a chance da pessoa aceitar o desafio do desamparo e de crescer com ele. Começar a “desdramatizá-lo”, pois ele pertence à finitude da vida humana. Impotentes sem nos dar-mos a nós mesmos a existência, vivemos uma pobreza essencial. Dependemos objetivamente dos outros, e esta situação não nos humilha porque caracteriza todos os seres do universo, que envolvidos numa teia de inter-retro-relações, devem assumir essa doce amargura.


Num conjunto de fatos interdependentes, quer sejam de natureza física ou social, o comportamento é função do campo que existe em torno de nós quando ele ocorre. E se quando duas pessoas que caminham pela mesma rua, quando andam, o lugar em que andam tem significados diferentes é porque o espaço em que vivemos é psicológico e não físico. Não podendo ser identificado com o referido ambiente, o espaço psicológico é quase físico, social e conceitual. Está condicionado e influenciado pelo meio físico, social e conceitual, mas é apenas o que vivemos psicologicamente visto de nossa posição.



Ricardo Magno

Tinariwen

Penso, logo desisto! Dá muito dor de cabeça pensar quando a maioria das indagações são oriundas de questionamentos vazios. Quando no Mentaculus, o mapa de probabilidades do universo for revelado, praticamente inexistirá o comportamento incondicional; porque mesmo quando somos incondicionais, fomos condicionados a sermos incondicionais.


Demorei a entender, mas hoje entendo os caras que pegam muita mulher. A vida deles é só isso mesmo. Dos caminhos certos que segui quantos caminhos certos eu errei. Ostracismo é fuga e libertação de implicações na prisão da memória coletiva. Ostracismo é vida ao contrário do contrário da própria vida. Quando nem sempre tomo no cú, esta é a sensação que geralmente tenho.


Todos querem saber e buscam meios para entender a quem e o que comunicar. Desde a Idade Média, quando o púlpito da igreja era o principal meio de comunicação, as formas se alteraram, mas a essência permaneceu semelhante. A pirâmide invertida na velocidade da informação e o nariz de cera dos belos textos literários. Rompendo as barreiras do subconsciente, cada leitor vem a se tornar um agente multiplicador das informações contidas nos veículos.


Todas as vezes que vou para a farra corro um risco e uma possibilidade. A noitada não fazendo muito o meu tipo, o risco é que eu quebre a cara e retorne para casa indignado. A possibilidade é que eu morda a língua, me divirta e conheça pessoas interessantes. Com o tempo, ao analisar o custo - beneficio dessa mecânica noturna, achei melhor ficar cada vez mais resguardado semelhante a uma gestante a se preparar para o grande dia.


Quanto mais vamos envelhecendo mais vai ficando difícil, pois cada vez mais estamos a perder força perante os vermes dos instintos. Com o peso da balança social a cair esmagadoramente sobre mim, depois de alguns anos, me recuso a freqüentar qualquer tipo de lugar onde me sinta esmagado. E este foi um dos direitos inalienáveis que adquiri ao longo de todos esses últimos tão curtos e passageiros anos.


Ricardo Magno

Carta engarrafada (para um novo amigo)





Querido amigo! Que vossa senhoria me perdoe à intromissão e a intimidade. Mas antes de me ignorar, permita ao menos que eu me apresente. Me chamo Ricardo Magno Silva Alves, filho de Antônio Alves Pereira Neto e Ana Luiza Pereira da Silva. Estou cursando jornalismo na UFMA e fiz até o quarto período de geografia na UEMA. Tenho 28 anos, solteiro, nordestino orgulhoso de pai e mãe e mais feliz ainda por ser filho deste querido lugar chamada Imperatriz do Maranhão.

Não foi para tomar o vosso tempo que venho digitar este texto. Pelo contrário! Há muito venho acompanhando vosso trabalho, do qual tenho muito orgulho (falo isso do coração porque sou orgulhoso demais para babar as pessoas). Creio que uma das maiores dádivas da vida é poder se tornar um grande homem. “E o nascimento de uma alma é coisa demorada, não é partido ou jazz onde se improvise; não é casa moldada, laje que suba fácil, a natureza da gente não tem que se medir.” Faço do Rappa minhas palavras. Pois para mim, vossa senhoria é um dos mais dignos homens que já pisou nesta terra tão sofrida - após muitas pesquisas e algumas enciclopédias, o senhor melhor do que eu, sabe do que estou falando. Me sinto orgulhoso com todos os vossos feitos, pois sei que de uma grande pessoa não há com o que se preocupar. Admiro-o porque também busco me tornar um grande homem. E este sempre foi o meu objetivo.


“Momentos de resolução necessitam de homens resolutos.”


Desde minha infância, durante toda a minha vida, em meio a uma roda de crianças e no frisson da iniciação jovial da vida amoroso, este foi um sentimento que nunca me abandonou. Nas travessuras de criança, nas desventuras da mocidade e em meio a conversas bobas de adolescente este sempre foi meu desejo oculto quase que inconsciente. À medida que fui amadurecendo, foi para essa inclinação que minha vida se “desgovernou” totalmente. E nunca me coube escolher outra coisa. Como Nietzsche diria, esse é o meu fatalismo da tarefa. Não há escolha quando todos os caminhos nos levam ao mesmo lugar - minha cidade a cima de todas as coisas.
Senhor! Perdoe-me se eu estiver sendo um pouco prolixo. E por mais que este texto possa lhe aparentar ter palavras demais, lhe garanto, com toda a certeza, que ainda não é o bastante para descrever o que se passa dentro de mim no trabalho misterioso de minha alma. Sou contra os resumos, pois eles excluem os detalhes valiosos. Sempre me senti tocado pelas questões sociais, sempre enxerguei a vida pelo prisma das questões políticas e socioeconômicas. Foi por esta afinidade que hoje faço parte de um iniciante grupo de pesquisas na UFMA. Não vejo à hora de Imperatriz desencantar! 

Atualmente, Imperatriz não passa de um corpo sem alma, de um lugar onde as coisas estão sempre prestes a acontecer, mas nada nunca acontece e este espírito reflete sobre a sociedade e nos cidadãos. Afinal, vivemos sob essa égide. Um judiciário que não funciona, um sistema de segurança pública congestionado, uma cultura popular oriunda do nosso folclore regional renegada e escassas políticas públicas com fortes resquícios coronelista - deste “belo” quadro social não poderia sair coisa boa. Mas o pior de tudo é o povo cego. Não cego para a responsabilidade dos outros e sim para os seus próprios deveres. A população vota e através do voto se isenta de qualquer maior responsabilidade com a ordem pública, para depois sair dizendo que somente os políticos é que são ladrões. Como se fazer “gato” na energia não fosse furto, como se subornar o guarda não fosse corrupção ativa. A Teoria da janela quebrada, desenvolvida por Rudolph Giuliani (prefeito de Nova York) e William Braton (chefe de Polícia de Nova York) na década de 90 quando os índices de criminalidade eram altíssimos nos Estados Unidos, afirma que um delito pequeno cometido hoje pode vir a se tornar um grande crime amanhã. Portanto, o certo a fazer é coibir, desde já, qualquer gesto, por mais sutil que seja o sinal delituoso.

É, meu querido! A isto se chama tragédia dos comuns. Todo mundo preocupado com os interesses individuais e esquecendo dos interesses coletivos. Assim, acabam se os salva-vidas e em meio ao conflito de interesses todos morrem afogados.

Uma das correntes de pensamentos socioeconômico que mais me fascina é a Escola de Frankfurt. Nela, Adorno, Horkheimer e Benjamin defendem a idéia de que existe uma relação direta entre evolução espiritual e progresso econômico. Ou seja, quanto mais uma população for instruída melhor será sua qualidade de vida. 

Deixando minha empatia de lado e buscando ser o mais imparcial possível, concordo plenamente com eles.
Senhor! O seu dia chegou e espero que o meu ainda chegue para que eu possa fazer com minhas próprias mãos o melhor por minha cidade. Thomas Hobbes, no Leviatã, afirma que aqueles que acreditam serem capazes de, no poder, fazerem melhor do que aqueles que atualmente estão lá, naturalmente, a tendência é que estas pessoas sigam de encontro ao poder. Pensando bem, acho que há muito tempo meu caminho já foi traçado e, apesar de “não gostar” muito dos políticos, até mesmo porque ainda não vi nenhum exemplo que preste, eu amo a política. O que me faz levar uma das máximas da bíblia ao pé da letra. Justamente aquela que diz que devemos amar o pecador e odiar o pecado. Sei que as pessoas necessitam de referenciais e queira deus que eu seja um deles. 

Amigo! Talvez não soe muito bem ouvir de um “penetra” todas essas baboseiras, afinal de contas, vivemos em um mudo no qual a competitividade e a desconfiança é exaltada em detrimento da cooperação e complacência. Todos se tornam suspeitos até que se prove o contrário. A justiça é quase que um personagem Machadiano.

Nesta semana, um jovem evangélico que conserta aparelhos eletrônicos bateu na minha porta para pedir qualquer coisa, o que fosse! E veja bem meu amigo: a única coisa que pude lhe dar foram roupas velhas. Roupas velhas?! Agora eu me faço constantemente esta pergunta: Como um rapaz igual a mim que tem pretensões de servir a minha comunidade, quando alguém lhe bate a porta só é capaz de lhe dar roupas velhas!?!?! Como resolverei os problemas socioeconômicos de meu município se mal consigo achar soluções para as pendengas financeiras de minha casa? Que belo grande homem de meia tigela estou vindo a me tornar.




Ricardo Magno

Conversa de amigos

Se em meio a uma putada sentires a alma ferida, se preocupa não my brother! Uma boa conversa nos basta, pois jamais eu meteria o dedo na tua cara. Se na putada rola de tudo, do tudo que rola, rola exceto esse tipo de putada.


Um homem e a sua vergonha na cara! Nada compra esse tipo de jóia rara. Um homem e sua hombridade! Nos vale tudo e não se cobra nada porque quando a bebida nos extrapola nós é que extrapolamos com ela.


Das pedras que joguei na lua, todas as três voltaram na minha cara. Se preocupa não, my brother! O teu sangue corre nas veias como se fosse uma navalha. A maldita lâmina de sangue que corta por dentro a nossa carne e que separa o corpo da alma.


Com a dignidade na lama, os porcos, sem perceberem, comem lavagens. Com a coragem na ponta dos dedos, eu escrevo algumas malditas cartas. Com o bico sujo de lodo, alguns pintos beliscam bostas. Se preocupa não, meu irmão! Que eu sou um dos guardiões da tua melhor morada. E se alguns loucos rasgam dinheiro e algumas crianças metem o dedo na tomada, então porque eu não posso jogar de vez em quando minha vida pela janela?


Mas o que quero mesmo é só refrescar a sala. Deixar o vento entrar por entre a areia e ver o pó inútil do passado ir embora. É que em algumas horas impróprias, nas mais próprias, a fúria, a mágoa e o ressentimento involuntário batem à porta. Se preocupa não, meu amigo! Porque nessas horas sou eu que estarei a vigiar a porta. E se nenhuma calamidade vir à forra é porque eu lutei contra o teu mal até a morte. Se preocupa não, meu irmão! Que sou eu que sou o teu irmão.


Dorme e descansa na paz que por minhas orações, deus está a velar pelo nosso sono.


Ricardo Magno

UM ORGULHO, DOIS PRIVILÉGIOS E AS DÁDIVAS

Meus amigos! Sempre que os trilhos de um caminho acabam, surgem novos trilhos e a vida continua com esperança. Aqui quem vos fala não é o poeta e muito menos o escritor, é o amigo! Bom, velho e sempre amigo. Danem-se os rótulos! Como diria Foucault, eles só servem para nos limitar e eu odeio estereótipos. Eu não sou nada! Eu não escrevo nada! E se um dia me tornar algo, não passarei de um membro das mais diversas classes paradoxais. Esse é um dos meus sonhos e minha grande utopia. No mais, apenas desenvolvo manuscritos. Literalmente manuscritos! Só isso e nada mais. Mas a verdade é que quando ninguém nos entende e nem nós entendemos a nós mesmos, é do lado de vós que sempre me encontro. Quando recoloco o copo de cerveja na mesa, são as vossas feições que vejo antes de tudo. E isso me enche de um imenso ORGULHO!


“Qual é o teu nome? Me diz, qual é o teu nome?”


Só suporta a realidade aqueles que não suportam os sonhos. E é por detrás de um sonho que se esconde o verdadeiro motivo. “Qual é o teu nome?” Quer saber qual é o teu nome? Teu nome é: meu amigo, primo e irmão. Teu nome é: MEU PRIMO-IRMÃO! Isso é um grande PRIVILÉGIO! Do mais, para mim pouco importa do que te chamam porque eles não conhecem tua alma e nem ouviram falar do labirinto em que tu se meteste. O conselho que te dou, se a mim for permitido dar um, é: Mete a cara no mundo! Abraça com toda força tudo o que poderes alcançar, abarca com toda a alma tudo o que ninguém consegue imaginar. Pois é lá que está teu tesouro e será lá que um dia iremos nos reencontrar.


“Na ponta da tua caneta sai fogo e paixão, traçado por linhas invisíveis codificadas para bons corações”.


Quem me ver não me olha e quem me olha não quer me enxergar. NA PONTA DA TUA PALHETA SAI POESIA E CANÇÃO, DEDILHADAS POR MÃOS MÁGICAS E ECOADA POR UM BRUTO CORAÇÃO. Igual a uma criança que apronta e mal sabe que cometeu uma travessura, assim és tu meu bom Brutão. Um felino de pequeno porte num corpo de leão. Um personagem da Liga da Justiça, o mesmo e sempre irmão. Faz farra à semana inteira para no sábado fugir do corisco do velho Rôdão. Meu bom Brutão! Se eu tivesse que fazer um transplante de coração, eu desejaria que fosse o teu. Se eu tivesse que ter um carro, eu desejaria que fosse o caixinha de fósforo. Se eu tivesse que dar um trago, eu pegaria do teu cigarro. Se eu tivesse que tomar um gole, eu beberia do teu copo. Mas se um dia eu tiver uma filha, o nome dela será Elise. Um PRIVILÉGIO te conhecer e depois saber quem será ela.


Após tudo isso, me digam se viver não vale a pena?!?!? Com o tempo, aprendi que foi dos infortúnios que surgiram minhas maiores DÁDIVAS. Que nós aprendamos juntos e que nunca acabem as belas amizades. Enquanto isso, em meio às “verdades”, finjo algumas gargalhadas e arrasto o corpo com a ajuda da alma.




Ricardo Magno

Imperatriz, 24 de dezembro de 2008.

Cavaleiro do Ébano

Cavaleiro que não se acomoda e foge da guerra. Assim és tu! Um feche de luz na escuridão da injustiça, menino das batalhas solitárias, ciente dos riscos e do curto prazo de tempo que se tem nessa jornada. Cavaleiro do Ébano! Foi assim que em uma de nossas conversas se auto-intitulastes.

Tentar, pra quem tem força de vontade é conseguir! Expor o ego é fraqueza! Quem viveu a injustiça desde criança facilmente reconhece o perfume da maldade, e hoje é adulto apto para mudar com as próprias mãos o indigno quadro. E das tuas qualidades, as pessoas só enxergam o reflexo. Porque todo esse respaldo oriundo de teu sucesso é em conseqüência do mais nobre caráter.

Se eu pudesse ser outra pessoa, eu gostaria de ser tu! Extrovertido, sério ao mesmo tempo engraçado, filho da luz e cavaleiro das trevas. Que a justiça seja feita sempre através de tuas mãos que não falham, lugar onde o medo e o receio nunca conhecerão, és o teu coração, meu querido irmão e grande exemplo por toda a minha história! Mil louvores em teu nome que és um nome de glórias!

Carregado de boa vontade e coragem, abrindo trilhas em meio à escuridão, és o teu exemplo intrépido a seguir desbravadoramente o caminho que todos temem. Por isso, a cada dia aumenta mais a tua glória à medida que o teu exército se enche de voluntários audaciosos, cada vez mais cresce a legião de seguidores por detrás de tuas costas, lutador implacável! Precavido mas nunca medroso, é assim que sempre te vi e assim sempre tu serás.

Independente de muito ou pouco prazo, sinto orgulho da nossa amizade, pois há muito tive o prazer de conhecer tua personalidade e ter a certeza de que és um homem sábio, meu querido amigo! Se um dia o desprazer me bater e mais cedo do que se espera eu tiver que te perder, abro mão das nossas transitoriedades para que nossa vida se perpetuar altruísta e corajosamente em um campo de batalha onde é nossa verdadeira casa. Pois no escuro em que se perdestes tentando fazer o que é certo, há muito eu já havia me perdido. Então, se esse for o nosso fim, te dou graças e mais graças pela nossa história e abençôo cada uma de nossas lágrimas, pois sei que ao futuro elas serão bem mais proveitosas do que uma vil e covarde mortalidade simplesmente usufruindo mediocremente das miseras horas... Enquanto isso, pelas ruas, são eles que têm que ter medo de ti e não tu deles.

Ricardo Magno

Nosso

Em meio a uma baita madrugada onde os carros a muito se recolheram das praças, tu acabastes de sair da minha casa sem que ninguém soubesse que um dia viestes. Assim eu espero!


Qual será a desculpa que tu irás inventar para os teus pais? Não sei e tanto faz, porque os riscos são um dos ossos do ofício inevitáveis para aqueles que pretendem amar. Só sei que depois de nós dois juntos, o meu corpo é que não quer descansar.


Gosto muito dos teus lábios nos meus e do estalo que nossas bocas fazem quando é chegada a triste hora de ir embora. Sempre me parece que não tem fim o nosso adeus!


Adoro os contrastes da noite pairando sobre teu corpo no silêncio que a gente faz, e quando fica mais nítida a perfeita silhueta que só a meia luz do meu quarto pode revelar.


É quando teu rosto fica mil vezes mais lindo e somente eu estou lá ti analisando. Nessas horas, me sinto o cara mais sortudo e feliz do mundo, pois sei que a minha sorte ninguém pode gorar. E mais do que consangüíneos de coração, um dia por deus tudo será explicado.


O motivo dessa forte atração talvez esteja ainda em muitos tempos remotos enquanto somente hoje, o aroma da tua pele é o que me deixa mais louco. É que às escondidas ninguém pode notar os sussurros que a gente faz.


De tanto ter prudência, acabei me deixando ser levado pela tua perigosa inocência e pelas derrapantes rodovias que em teu corpo jazem todos aqueles que tiverem o privilegio de cruzarem.


Incauto eu? Quase sempre em tua companhia, pois contigo corro qualquer perigo cometendo alguns delitos antes que as portas se abram e sejamos pegos despreparados... Enquanto é sempre um risco a tua companhia me instigando a correr mais insano pelas nossas avenidas.


Ricardo Magno

O narcisista e as faloístas




Meu pênis é um membro sagrado. Transar comigo é o mesmo que a iniciação em uma seita. E as neófitos me adoram! Sem pecado, sem culpa, as jovens garotas me adoram!


É como dar uma volta na roda gigante. O pecado é não pecar! E quanto mais desapercebida elas estiverem, em um solavanco, as deixo de cabeça para baixo.


Meu quarto é um santuário de gozo espiritual. Minha cama é um altar de gozo carnal. O ímpio mancha sua alma de pornografia e devassidão, fazendo de seus aposentos um local de sacrifício. O sábio satisfaz os corpos e as almas.


Meus aposentos são iguais a pedestais de jubilo e comunhão espiritual! Para o meu deleite e o desfrute da mulher que amo.





Ricardo Magno

Galhofeira

Até que ela é uma boa pessoa, legal! Mas transar com ela mal levanta meu pau.


Mesmo sendo pirada, riponga e divertida, fude-la mal envaidece minha pica.


Apesar de ter uma vagina, ela possui uma libido masculina.


Todos na sua rua são seus fregueses, mas por ideais filosóficos não fode com os burgueses.


Acha que ser alternativa é não se enquadrar no sistema, mas na hora da orgia adora a vida coletiva.


Estudou Nietzsche, psicologia e sociologia, e agora pensa que ser maluca é se esconder atrás da psicodelia.


A saia bem avulsa não é a única que esconde a vulva. Há também uma selva de pêlos que descendo a calça saltam aos seios.


Mas se um dia ela vacilar de novo, no barbudinho eu meto os peitos! Porque meu pênis é a varinha mágica que realiza todos os seus desejos.






Ricardo Magno

Uma grande mentira

Maranhão! Na gramática significa emaranhar, uma peta engenhosa, ou seja, uma grande mentira! E sem sombra de dúvidas é esta a sensação que tenho do estado que mais amo.


A conjuntura é somente para os fortes, mas se deus cumprir a sua parte, eu já tenho muito bem ensaiado todos os meus planos.


A estrutura de animosidade política favorece os espíritos corajosos. A hierarquia mexeu com a caixa de abelhas, agora só lhes resta correrem para não serem esporados.


Em meio a acórdãos de cassação, talvez pela primeira vez o sul do Maranhão esteja prestes a entrar numa conjuntura verdadeiramente histórica, levantar poeira e acordar quem precisa acordar!


A ciência jurídica não serve de nada se sua finalidade for apenas julgar os fatos. Aos esquecer as intenções, existe uma grande possibilidade de impugnar os mais belos atos.


Embora seja tentador, às vezes acho melhor não me importar com o idealismo, nunca mais assistir filmes de ficção. Aí percebo o quanto é difícil extrair um desejo cultivado no coração por um longo tempo.





Ricardo Magno

O Mimetismo social e o Neologismo

O mimetismo social é o comportamento humano análogo ao dos animais. Na busca por sobrevivência social, ascensão e aceitação da classe dominante, num processo de auto-desvalia, o indivíduo passa a absorver como seu hábitos, valores sociais e culturais da elite, assim distanciando-se de sua verdadeira identidade social e alienando-se correlação as suas raízes culturais. É a perda da personalidade social, prostituição dos princípios culturais e étnicos como forma de subjugação e auto-imposição amoral.

No almejo de se assemelhar e obter respeito de uma elite imigrante, inicia-se a conduta mimética de imitar atitudes, gostos e preferências culturais chegando ao cúmulo de forjar trejeitos regionais alheios ao seu próprio processo de regionalização.

Da mesma maneira que a astúcia dos animais, diante do risco de vida, os obriga a serem dissimulados e fingirem estar doentes ou aparentarem serem mais perigosos do que realmente são, assim também fazem os indivíduos. Por fatores sócio-econômicos, em outros casos por escassez intelectual, inconscientemente, eles se vêem condicionados por forças exteriores invisíveis da auto-imposição do não mandar.


Ricardo Magno

As Teorias do Estado de Marx e de Hegel e o desenvolvimento e subdesenvolvimento das Nações

Deixando de lado os embates travados entre as teorias de Marx e Hegel, o propósito aqui discorrido é de usá-las isoladamente, como metodologia de estudo na análise da formação dos Estados desenvolvidos e subdesenvolvidos, em que, compará-las não é a intenção deste ensaio.

A filosofia especulativa de Hegel produziu a noção de Estado supremo, acima da sociedade civil, da família e de todos os seus antecessores históricos. O que a priori já seria ridículo embora o intuito não seja criticar. Na prática, a conseqüência do Estado hegeliano seria uma sociedade cujas classes menos favorecidas seriam submissas a uma forte centralização do poder na esfera federal, com poucas políticas públicas voltadas para as classes dominantes. As redes de ensino, saúde e segurança pública precárias apontando para uma forte concentração das políticas direcionadas para os interesses neoliberais da acumulação de capital em detrimento do bem-estar das massas.

Características de países a exemplo do Brasil - único país que antes de se formar uma consciência política e vir a ser Nação já tinha um Estado – Português - consolidado, se valendo da máquina estatal em provimento próprio.

Ao contrário de Hegel, o Estado Marxista prioriza o valor do indivíduo, da família e da sociedade como células primarias do Estado, logo antecessores históricos seu. Para ele, o Estado é produto das relações sociais, dos modos de produção e de uma e infra-estrutura precedente a toda organização social, contratual e racional. Sendo assim, justifica-se a formação de uma supra-estrutura adequada as relações materiais de existência. Processo evolutivo parecido com o dos países desenvolvidos.

Isentando-me de sobrepujar uma teoria à outra, ficam claras as conseqüências de ambas as acepções levadas na prática. Também não seria cabível inverter os métodos correlação aos seus objetos de estudos visto que a escolha de ambos e seus respectivos modelos de estudo não foram decididos arbitrariamente, e sim, como causa-conseqüência.

Ricardo Magno