10 de novembro de 2010

Gato-Preto





Através de uma silhueta que mais parece com os rascunhos de um Tim Burton, a carcaça chega a se confundir com a noite. Onde é escuro, ele veste a escuridão. E foi assim que sempre seguiu a vida como um personagem gótico de animação gráfica.

O filho bastardo de duas barrigadas, irmão gêmeo de uma gata siamesa oriundo de uma gestação bi vitelina, assim ele se fazia como o Cavaleiro de Ghotam no quintal de minha casa.

Rabo torto, destino quebrado. Retornava todas as noites cada vez com menos pêlos nas costas. Frequentava festas que não era convidado, se alimentava de comida sempre requentada, fez amizade com o outro lado, e por isso acabou ficando marcado pelo resto dos gatos.

Nasceu sabendo mentir, roubar e enganar. Não andava no chão porque se não o cachorro o pegava. Não andava por sobre o muro porque se não os demais gatos o rechaçavam. Era o mais novo do bando e mesmo assim, também era o mais humilhado.

A irmã mais nova era a única que o respeitava e obedecia a ordem natural de uma tal de hierarquia felina. Dava licença para ele passar sempre que eles poderiam disputar a comida... E cedo morreu. Por ironia, intoxicada por um alimento que eles não puderam disputar.

Agora o coração do preto estava em negrito. Dormia em cima das latas, descansava sobre a interseção de um pedaço de madeira na caixa d’ água. E começou, cada vez mais e com mais periodicidade, a se envolver em tremendas discussões que levantavam as telhas da casa. Mas foi em uma overdose qualquer, andando por qualquer lugar, na companhia dos gatunos mais nefastos, que ele errou o passo, caiu do galho, e se não fosse o pedaço de pão com manteiga que ele andava amarrado nas costas, dessa não teria escapado.


Ricardo Magno




3 Comentários:

Gonzo Sade disse...

Será q eu posso contar, aqui, aquela piada surreal do gatinho preto na esquina?
Não, deixa pra lá. Iria "fulerá" esse teu belo texto, brother. Esses escrachos só prestam na minha lapada.

Ricardo Magno disse...

Há, há, há! O problema seria que, o meu texto se tornaria um comentária da piada. Pois aquela piada é genial.
Abraço, irmão!

Juh Salomé de Beauvoir. disse...

Claro humor, gato petro,
Negro amor, negro gato!
Claro gato, Amor preto,
Humor negro...

"E não tem mais nada..."

;)