16 de novembro de 2010

Jack Flash: Dilúvio





Com todas as calças apertadas, ele sabe que não é mais o mesmo. Enquanto isso, ratos surtam dentro da sarjeta. A vontade de defecar faz com que ele, forçadamente, se levante mais cedo. “Maldita bosta a evacuar nas horas impróprias!” Após sonhar, ele relembra de toda a trajetória em espiral que os seus pensamentos percorreram durante a noite. São duas horas da manhã. Já era hora mesmo de despertar.

As ruas estão todas vazias ao longo dos bairros por onde se quer olhar. No centro ferve a confluência de pênis desinibidos e vaginas recalcadas loucas para dar. Nesses momentos, álcool e drogas ajudam a burlar a nefasta do retardamento do prazer ao qual todos nós fomos mecanizados. Narcóticos! O idioma prediletos dos escritores californianos para se falar de algo. Burroughs, Ginsberg, Kerouac e até mesmo Bukowski traçaram o mesmo retrato de várias cidades. Donzelas disformes! O sexo é dois animais tentando trocar de corpo.

“Quando sozinhos, seguimos a marcha para a guerra. Acompanhados, estende-se logo a bandeira branca. No celinho da bicicleta, como minha piroca gostaria de ser o pistão para esfregar no cú daquela “velha”. Mas fazer o que quando a auto estima está amarrada ao pé de uma maldita cadeira igual a um bebê elefante sendo adestrado? Nasça ou passe sua vida inteira almejando ser.” Então, logo ele pensa em pra que ter passado a vida inteira lendo livros de merda. Só pra ter a certeza de que o que ele contemplava realmente eram as sombras? Pois bem! Mordeu-se na língua, arrancou um pedaço da maça e agora não é mais capaz de resistir as tentações de Eva.

Sentando na cama, olhando e sendo observado em volta por tudo, um ventilador novo não lhe vale de nada. Faz mais barulho do que vento e sempre acaba o vencendo pelo cansaço. O som das cambaleantes hélices bêbadas pouco a pouco vai gerando na consciência uma espécie de transe hipnótico. Dorme e acorda permutando por entre dias em um constante presente, cujo agora, tenta ignorar qualquer nexo com o passado. Mas rejeitando os resultados e lutando contra uma sine qua non que insiste em o pôr para baixo, não se torna impossível achar uma merda estar vivo nessas horas. Encerra-se o silêncio. Tampam-se os ouvidos, pois é preciso desabafar.

Ao confundir o dia com a noite, a camiseta preta não revela a mancha de sangue. A cor preta emagrece. Principalmente em um derramamento de hemoglobina. Tudo começou após duas garrafas de Old Barr. Sentado do lado errado, contra o vento, o carro vermelho mais parecia um relógio. É sábado à noite, o dia predileto para as prostitutas fazerem a barba. Dentro do banheiro, na espelunca de qualquer bar, do outro lado do espelho, ele observa uma espécie de felicidade que não é capaz de alcançar. Pura nitroglicerina óssea cartilaginosa! No imundo cômodo de mármore vizinho, um viciado paraplégico filho da puta que parece não ter ossos, na hora de urinar, a paralisia infantil faz o pênis do invertebrado vomitar.

Por entre a parte podre da cidade, no câncer do município, ele segue por calçadas onde milhões de prostitutas já pisaram e, no momento, só deus sabe onde seu pau irá enfiar. A cidade já não é mais a mesma. No céu, trovões artificiais emitem relâmpagos a cada meia hora. No fundo vermelho do inferno celeste, nuvens de carbono exalam a enxofre. Ao cruzar por uma ruela imunda e abandonada onde viciados fizeram ninhos, o carro de polícia desmanchado lembra a velha e inútil segurança pública de outras datas.

São torres e edifícios com mais de cem metros imersos dentro da água à lembrar com as pontas icebergs. Nesta decadente paisagem urbana surreal, Salvador Dalí teria inveja. Subindo a rua principal adiante, tudo é harmonicamente desorganizado, bagunçado, enquanto lojas são aleatoriamente saqueadas com os tons da probabilidade randômico de um dadaísmo do acaso. Em frente a ele, uma criança lhe aparece com uma arma.

O corpo, recém-novo da última ressaca, ainda lhe dói como o de um bebê que acabará de chegar ao mundo. A forte chuva cai enquanto ele treme todinho ao som dos toques de piano que cada gota faz sobre a epiderme. No velho néon multicolorido dos letreiros das lojas onde um dia habitaram as calçadas principais, hoje, não se ver mais nada. Os postes não acendem. Com o tremor da ventania, dois velhos fios de energia semimortos constantemente se enamoram no instante em que seguem a direção contraria. Quanto a isso, faíscas caem do céu.

Abaixo de um semáforo de três olhos, continua a criança. No meio da rua onde está, a água já atinge o joelho. Ratos surfam em sua direção. Enquanto a ventania realiza o namoro acrobático dos fios descascados, como numa desfibrilização, o semáforo tentar dizer algo. Ele vai calmamente em direção a criança, fantasmas rodam a memória. Questiona se ele já desenvolveu força o suficiente para disparar a arma, mas opto em ter cautela.
Em uma espécie de Hollywood de outras eras, perdido naquelas ruas corrompidas cheias de animais mortos, ele espera como se fosse um louco... Ao longe, na metade do percurso, a criança grita: “Você nunca deveria ter vindo até aqui!” Mas ele finge ignorar.

Todas as vadias de plantão põem suas mãos para o alto e acenam para ele como se não se importassem. Elas o encontram e o enganam. Dizem que ele é o melhor que já viram. Mas ele nunca deveria ter acreditado. Daqui, os outros olham pra ele de maneira repugnante.

Ele estava no muro, se sentindo com dez pés de altura enquanto todos os vermes fumavam cigarros na Avenida Santa Mônica. Essa era a página da frente. Essa é a nova era. Enquanto, todas as vadias põem suas mãos para o alto e acenam para ele como se não se importassem.

Todos os vermes fumando cigarros na Avenida 27 St. Todas as cachorras põem suas mãos para o alto e dão adeus para ele como se não se importassem. Pessoas impostoras vêm para rezar. Olhos sobre todos eles implorando pra ficar. Pessoas falsas vêm para rezar.

As linhas na carta dizem: Todos os vermes fumando cigarros nas avenidas Santas. Todos os vermes fumando cigarros na avenida do boquete.
Todos os vermes fumando cigarros na Hollywood de outra época. E ele nunca deveria ter acreditado. Nunca deveria ter vindo.

Ao chegar perto do menino, antes que o braço se estenda plenamente em direção a arma, o canhão dispara: “BOOM!” Cerram-se os olhos, não se sentem mais as gotas de água, a criança foge. Lixos começam a desfilar na enchente por entre os batentes das calçadas mais baixas. Instantes depois, ele acorda. Não se sabe se vivo ou morto, de um sonho ou dentro de outro, apenas ele acorda. E como Novalis diria, com uma flor azul por entre os braços.



Ricardo Magno



1 Comentários:

Juh Salomé de Beauvoir. disse...

"Whoring down your whoring streets"...and,
"You should’ve never trusted Hollywood
You should’ve never gone to Hollywood!!!"