20 de agosto de 2010

Frases


1 - Afogo-me nos problemas e vejo paz em suas ondas. De noite, deus sempre vem me visitar. Me mostrando quem sou e pra onde vou, ele só tem é preguiça de me ajudar.


2 - É na busca por loucos prazeres que sempre acabo me perdendo na perseguição dos rumores de um novo paradeiro de outros sabores que estejam muito além do delicioso paladar que ela sempre me dá.


3 - Tão agredida quanto o filho da puta, tão querida quanto à puta, assim é minha alma presa numa jaula que se amplia e por isso me sinto mais livre. É só isso e nada de liberdade.


4 - A questão vigente não é mais se aprofundar nos pensamentos, e sim, se libertar deles. Porque é preferível aceitar os fatos a imaginar hipóteses.


5 - Em um processo do processo cujo sou um ser inacabado, meu coração canta uma música e ela é psicodélica.


6 - Eu não escrevo pra ganhar dinheiro, eu ganho dinheiro porque escrevo. E mesmo se não ganhasse continuaria escrevendo. Porque neste caso, a ordem dos produtos altera os fatores.


7 - Por demais, nos prendemos em sonhos mais do que nas pessoas que nos fazem sonhar, e uma das dores mais cortantes é ver esses sonhos acabarem.


8 - Das virtudes mais belas, ou os outros vêem ou aqueles que as têm não podem dizer nada.


9 - A pobre gramática é mais rica do que nossos nomes. Subjugando-me a impotências, me torno mais fraco do que um sujeito indeterminado, enquanto uma palavra vale mais do que a mim e uma frase vai além do verbo-carne à medida que a regência verbal me mata de curiosidade.


10 - O silêncio, às vezes, é a melhor forma de se expressar. E o vazio, às vezes, é a única coisa que nos preenche. E mesmo assim, contentai-vos em dormir todos os dias de barriga cheia.




11 - Pra que ficar dentro de casa numa noite tão linda? Aqui, o som da música é tenebroso. Então, o que faço é manter o coração rígido como o aço, ou, ao menos aparento ser assim. Esperar mais uma festa, motivo banal pra encher a cara de tédio e expurgar publicamente meus demônios fingindo que dessa vez eles foram embora.




12- As pessoas olham para um bêbado e o que elas vêem é só um bêbado. Que pena! Um mundo cheio de visões limitadas. Pois eu vejo bêbados, psicóticos, crianças e vagabundos. Assim diria Manoel de Barros.


Ricardo Magno

18 de agosto de 2010

A bússola das emoções


O gosto da tua boca é o hálito do meu veneno. Todo mundo conhece o espinho e mesmo assim se deliciam da dor, porque a satisfação pessoal é como uma espécie de orgasmo mental.


A única função do coração é nos matar com o que mais queremos. Isso ele sabe fazer muito bem e de um jeito bem feito! Enquanto dias vão, minutos passam, a presença some e sentimentos marcam.


Os cadeados do inferno não podem me prender, pois do teu prazer minha boca já provou do fel.


Pensar em ti me falta palavras porque parece que o mundo fica desorganizado.


Não há mais sol no paraíso! Ele agora se esconde por detrás de nossos olhos e escurece as sombras dos visitantes.


Perdi-me nos meus caminhos e estou feliz sozinho, pois tenho a lua pra me guiar.


Afogo-me nos problemas e vejo paz em suas ondas. De noite, deus sempre vem me visitar. Me mostrando quem sou e pra onde vou, ele só tem é preguiça de me ajudar.



Ricardo Magno

16 de agosto de 2010

A Hora do Rock!


Foi tudo culpa do cinema! Uma canção arrebatadora e, uma famosa cantora de samba-canção acabou envolvida com esse tal “novo ritmo”. Tudo começou em novembro de 1955 quando a “melodia” “Rock Around the Clock”, tema do filme “Blackboard Jungle” (Sementes da Violência) foi gravada por Nora Ney em cima da versão de Bill Haley & His Comets. Assim nascia o primeiro rock gravado no Brasil.
O estouro de “Rock Around the Clock” detonou o surgimento do rock’n’roll no Brasil, como em todo o mundo, por meio da tão digna e prestativa Sétima Arte. Incluído na trilha do filme, a música tocava apenas em sua abertura, durante a apresentação dos créditos, mas o suficiente para agitar os jovens espectadores e produzir grandes confusões nas salas de cinema.
Retratando conflitos de uma juventude que começava a buscar seu espaço na sociedade, o filme estreou em São Paulo e Rio de Janeiro em outubro de 1955 – no calor da morte trágica do ídolo jovem da época, James Dean. O filme, na verdade, faturava o sucesso comercial da música e amplificava ainda mais a sua febre inicial.
A situação de “descontrole” da juventude chegou a depredar cinemas ao som do rock, não agradando às autoridades. Em muitos casos, o filme chegou a ser proibido. O governador de São Paulo, Jânio Quadros ordenou ao secretário de Segurança que determinasse “à polícia deter, sumariamente, colocando em carro de preso, os que promovessem cenas semelhantes; e, os que fossem menores, entregá-los ao honrado juiz”. Com efeito, juizes de menores baixaram uma portaria proibindo o filme para aqueles que não tivessem 18 anos.
Apesar de tanto frenesi causado pela revolução involuntária, a verdade é que o destino previsto para “Rock Around the Clock” era outro, bem diferente. Gravada em 12 de outubro de 1954 e lançada no mesmo ano, o single foi inicialmente um fracasso, vendendo somente 75 mil cópias nos Estados Unidos. Foi somente um ano depois, com a inclusão na trilha de Sementes da Violência, que a música explodiu em vendas no mundo todo.
A gravação de Haley era, na verdade, um cover de um original lançado havia um mês pelo cantor ítalo-americano Sonny Dae & Knights. Seu autor, Max C. Freedman, era um nova-iorquino de 63 anos – nada mais distante do juvenil rock’n’roll que ajudou a construir. Ainda mais interessante é que Dae a relegou a um discreto lado B do vinil. A música, no entanto, estava marcada por confluências históricas, que, talvez, sejam a principal razão de seu sucesso.
A versão de Haley traz em seu DNA, pelo menos, a influência de outras três canções. O próprio admitiu a “inspiração explícita de um antigo blues de 1922 chamado “My Daddy Rocks Me (With One Steady Roll)”, de Trixie Smith. Outra fonte, dessa vez não assumida, seria “Movie It On Over”, de Hank Willians, de 1947. A terceira influência direta é o tema instrumental “Syncopated Clock”, de Leroy Anderson (1945), da qual “Rock Around the Clock” seria uma espécie de variação roqueira.
Composta em outubro de 1952, a canção já havia sido oferecida a Bill Haley naquela época, pelo promotor e empresário James Myers. A música, no entanto, não entusiasmou Dave Miller, produtor da Essex Records, então dono do passe de Bill Haley, que preferiu outra canção.
Como se não bastassem tantas confusões, ainda vale dizer que existem outros dois registros com o nome de “Rock Around the Clock” anteriores a gravação de Haley, interpretados por Hal Singer (1950) e por Wally Mercer (1952). A autoria da música também é confusa. Uma das versões reafirma a parceria de Max C. Freedman e James Myers. Segundo o próprio Myers, em entrevistas, ele teria “completado” a canção inicial do Freedman. Outra sugere que Myers apenas assinou a música, na condição de editor, e também agente de Bill Haley, como era comum na época.
Até onde se sabe, a expressão “rock’n’roll” é creditada ao Dj Allan Freed. Mas é somente até onde se sabe...

Fonte: Revista Super Interessante especial história do rock

A sociedade midiatizada por uma outra comunicação


Não é possível habitar no mundo sem nenhum tipo de ancoragem territorial, de inserção no local, já que é no lugar, no território, que se desenrola a corporeidade da vida cotidiana e a temporalidade – a história – da ação coletiva, base da heterogeneidade humana e da reciprocidade, características fundamentais da comunicação humana, pois, mesmo atravessado pelas redes do global, o lugar segue feito do tecido das proximidades e das solidariedades. Pois o sentido do local não é unívoco.
A mundialização cultural não opera a partir de fora sobre esferas dotadas de autonomia, como seriam o nacional e o local. O processo de mundialização é um fenômeno social total que para existir deve localizar-se, enraizar-se nas práticas cotidianas dos homens. Não se pode, portanto, confundir mundialização com padronização dos diferentes âmbitos da vida, que foi o que a revolução industrial produziu.
O que está em jogo é uma profunda mudança no sentido da diversidade. O processo de globalização que vivemos, no entanto, é ao mesmo tempo um movimento de potencialização da diferença e de exposição constante de cada cultura às outras, de minha identidade àquela outra. Isso implica um permanente exercício de reconhecimento daquilo que constitui a diferença dos outros como enriquecimento potencial da nossa cultura, e uma exigência de respeito àquilo que, no outro, em sua diferença, há de intransferível, não transigível e inclusive incomunicável.
Distintos modos de ser passam a concentrar-se e a conviver no mesmo lugar, convertidos em síntese do mundo. O que os processos e práticas da comunicação põem em jogo não são unicamente os deslocamentos do capital e as inovações tecnológicas, mas sim profundas transformações na cultura cotidiana das maiorias: nos modos de se estar junto e tecer laços sociais, nas identidades que plasmam tais mudanças e nos discursos que socialmente os expressam e legitimam.
A comunicação é percebida como o cenário cotidiano do reconhecimento social da constituição e expressão dos imaginários a partir dos quais as pessoas representam aquilo que temem ou que têm direito de esperar, seus medos e suas esperanças. O que significa que nele não se reproduz apenas à ideologia, mas recriam-se as narrativas nas quais se entrelaçam o imaginário mercantil com a memória coletiva.
Os novos saberes remetem a novas figuras de razão que interpelam desde a tecnicidade ao processo da informação e a sua matéria-prima de abstrações e símbolos. Ao trabalhar interativamente com sons, imagens e textos escritos, o hipertexto hibridiza a densidade simbólica com a abstração numérica, fazendo com que se reencontrem duas, até agora “opostas”, partes do cérebro.
Até pouco tempo, falar de identidade era falar de raízes, isto é, de costumes e território, de tempo longo e de memória simbolicamente densa. Disso e somente disso estava feita a identidade. Mas falar de identidade implica falar de migrações e mobilidades, de redes e de fluxos, de instantaneidade e fluidez através da esplendida imagem das moving roots, raízes móveis, ou melhor, raízes em movimento.
Na questão de memória e reconhecimento, a identidade não é, pois, o que é atribuído a alguém pelo fato de estar aglutinado num grupo mas, sim, a expressão daquilo que dá sentido e valor à vida do indivíduo. Pois essa hegemonia imagética se acha associada ao fato de que hoje o “reconhecimento recíproco” desenvolve-se especialmente no direito a ser visto e ouvido, que equivale ao de existir e contar socialmente tanto no terreno individual quanto coletivo das maiorias quanto das minorias.
De um lado, as mídias de massa se transformam em “máquinas de produzir o presente”, dedicadas a fabricar o esquecimento em conjunto com o mercado, ao planificar a acelerada obsolescência dos objetos como condição de funcionamento do próprio sistema de produção. Ainda que moldados pelo mercado, esse modelo existe e deve ser levado a sério como sintoma de um profundo mal-estar cultural, em que se expressa a ansiosa indigência, que sentimos, de tempos mais longos e da materialidade de nossos corpos reclamando menos espaço e mais lugar.

Cinema Delinqüente


Revoltando-se contra qualquer coisa, a ressaca do pós-guerra trouxe embutida a necessidade de contestar antigos valores. A perda da inocência e a conseqüente desconfiança nos mais velhos ampliaram o abismo entre gerações. Nada mais perfeito do que o frenético, indecente, imoral e excitante rock’n’roll para selar esse conflito. O cinema não demorou para perceber o potencial desse novo filão e a indústria de Hollywood tratou de estampar nas telas o inconformismo.
O drama estudantil Sementes da Violência (Blackboard Jungle) estipulou o marco zero do rock’n’roll nas telas ao exibir “Rock Around the Clock”. O filme captava o clima tenso entre os “rebeldes sem causa” e as instituições conservadoras. A cena do delinqüente que quebra uma coleção de discos de jazz não deixa de ter um forte simbolismo.
Atento a todo o alvoroço provocado pelo novo ritmo, o veterano produtor Sam Katzman decidiu investir no primeiro filme sobre a febre do rock’n”roll. Em março de 1956, Ao Balanço das Horas (Rock Around the Clock) levava o verdadeiro rock às telas, contando a história (um pouco ingênua, deveras fictícia) da ascensão e descoberta de Bill Haley e seus cometas. No filme, o rock’n’roll é tratado como uma “onda”, à qual todo artista que quer fazer sucesso deve aderir o quanto antes. Mais ou menos como aconteceu com Haley, um cantor caipira de meia-idade, alçado da noite para o dia ao posto de “ídolo da juventude”.
Claro que detalhes como esse pouco importavam aos produtores; os filmes de rock não defendiam ideais ou estilos de vida. O objetivo era faturar com a nova mania. Eram garotos entre os 13 e 25 anos que lotavam os drive-ins, então nada mais lucrativo do que fazer filmes para esse público rejuvenescido.
Foi o cinema que cuidou de transformar o rock numa manifestação sociológica perene. O espírito inquieto do novo ritmo se manifestava por meio da arruaça promovida durante as sessões. Assim, os filmes ajudaram a definir o famoso jargão “o rock não pode parar”.


Fonte: Revista Super Interessante espcial história do rock

O jardim do solar

Aquele verso de “Panis et Circensis” (“mandei plantar/folhas de sonho no jardim do Solar”) diz respeito ao Solar da Fossa, que era um grande cortiço transformado em hotel, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Era um lugar barato e todo mundo da bossa nova, da jovem guarda e da tropicália conviveu ali. E os malucos realmente plantavam maconha lá (“folhas de sonho”). Mas a maluquice é muito relativa, as aparências enganam. Havia muito mais gente da MPB usando drogas do que os roqueiros. O iê-iê-iê era careta, até.
Publicamente, a convivência era ruim, mas na intimidade era um circo. Existiam vidas em comum, freqüentavam-se os mesmos restaurantes para bater papo. O Cave, na Rua Eduardo Prado, em São Paulo, por exemplo: todos apareciam às 3 da manhã para comer picadinho. E escutava-se um rockinho para dançar! Esse fosso musical foi alimentado por jornalistas e ideólogos rançosos, era uma guerra criada artificialmente. Os festivais, claro, se beneficiavam do problema. A Record tinha os programas Jovem Guarda e o Fino da Bossa, que preferia colocar como concorrentes, porque imaginava que assim teria maior repercussão. Ambos tinham audiência, mas as pessoas assistiam porque o barato da época era a música.
É claro que aconteciam atritos. Numa noite, Geraldo Vandré discutiu com Caetano e Gal, afirmando que “Baby” era uma merda e que eles tinham de apoiar a canção dele no festival, porque ela sim faria a revolução. Houve também a famosa passeata contra a guitarra elétrica, em 1967, insuflada pela Record. É gozado porque na linha de frente estavam Elis Regina e Gilberto Gil de braços dados. E ele já estava preparando “Domingo no Parque”...
Era impressionante! O Gil ouvia Sgt. Pepper o dia inteiro. Só depois se percebeu o que ele estava tentando captar. Quando aconteceu a tropicália, ele e o Caetano já tinham o aval do público. Isso tudo acontecia em São Paulo. No Rio de Janeiro, “Travessia” era o grande sucesso. Não havia uma definição clara entre o que o público e os artistas queriam, daí esse abismo.
O pior mesmo aconteceu nas gravadoras. Havia o elenco “comercial” e o “artístico”. O primeiro grupo bancava os discos do segundo. Viravam a cara para a jovem guarda e era ela que financiava todo mundo! Os Golden Boys e o Trio Ternura fizeram backing para vários artistas, mas ninguém queria parceria com eles porque eram do iê-iê-iê; o César Camargo Mariano tocava no Som Três acompanhando o Wilson Simonal, que era desprezado por fazer pilantragem...
As barreiras se romperam com o tropicalismo, foi algo libertador. Em 1968, todos eram tropicalistas - até a Beth Carvalho apareceu tocando theremin! Não se tira o mérito de Gil e Caetano, mas tudo aconteceu porque o Rogério Duprat indicou Mutantes e Beat Boys para acompanhá-los. E não podemos esquecer que o Ronnie Von já tinha dois discos rigorosamente psicodélicos que são um primor. São seminais, foram seus Sgt. Pepper. O problema no Brasil é o excesso de ego. Todos querem ser os grandes descobridores e não “liberam” as referências. Isso deforma a nossa história.


Fonte: Revista Super Interessante espcial história do rock 

Sem palavras


Na virada dos anos 60, o rock brasileiro ainda se esforçava bravamente para estabelecer seus primeiros ídolos populares quando o estilo foi varrido por uma nova onda – a das “guitarras que cantam”.
Era a insuspeita moda dos grupos de rock instrumental, propagada pelos ingleses do Shadows, os americanos do Ventures e reafirmado por gente como The Tornados ou Duane Eddy, todos substituindo a linha melódica dos vocais por rascantes guitarras elétricas. Assim, impulsionaram dezenas de grupos brasileiros a arriscar manobras sonoras que exigiam grande perícia. Rapidamente, o rock instrumental se fundiu à nascente surf music e ao twist, criando um sólido terreno para música jovem que seria praticada nos anos 60.
Na verdade, os grupos instrumentais surgiam como simplificação juvenil dos chamados “conjuntos melódicos” – big bands de salões de dança dos anos 50. O gênero caiu como uma luva diante da dificuldade em adaptar – ou mesmo compreender – as letras em inglês do novo ritmo e aproveitou-se de um cenário ainda precário em relação a ídolos jovens. Um dos conjuntos mais expressivos, responsável por dar credibilidade ao rock nacional em seus primeiros anos, foi o The Jordans, que apareceu na TV pela primeira vez em 1958, no programa de Tony e Celly Campello. Na estréia em disco, A Vida Sorri Assim!..., de 1961, além de versões convincentes, o grupo liderado pelos guitarristas Sinval e Alladin conseguiu permanecer diversas semanas nas paradas com “Blue Star” (Victor Young).
Outro nome importante na arte do acompanhamento, o The Clevers foi um caso raro de contribuição autoral do rock instrumental brasileiro, com “Clevers Surf” – isso antes de se tornar Os Incríveis, em 1965, e alcançar grande sucesso com a versão de “The Millionaire”. Outros nomes que fizeram parte da turma da praia foram The Rebels, Top Sounds, Bolão & Seus Rockettes, The Sparks, Os Santos, The Avalon, entre outros.
A dificuldade em emular o som das bandas estrangeiras com a tecnologia inferior das guitarras nacionais, só não foi maior do que competir com os novos ídolos da jovem guarda em meados da década de 60. Para uns, a saída foi tornar-se definitivamente uma banda de apoio.


Fonte: Revista Super Interessante espcial história do rock 

O rei da pilantragem


“Namoro garotas de 16 anos desde que tinha 18. Não é agora que vou parar”


Mais um momento crucial da história dá música popular brasileira, foi um instante transformador dos rumos da cultura deste país enjoado. Carlos Imperial chegou para o jovem Roberto Carlos e deu o toque: era melhor parar com aquela história de imitar João Gilberto, violãozinho, mãozinha de aranha no acorde difícil, voz baixa. O negócio era cair no iê-iê-iê. Daí pra frente tudo foi diferente, e um país inteiro, bicho, aprendeu a ser gente.
Imperial enganjou-se na difusão pioneira do rock’n’roll em Copacabana, ainda na segunda metade dos anos 50. Priscas eras em que o sujeito que quisesse profanar seus quadris com aquele ritmo tinha de confiar em Cauby Peixoto.
Em 1958, arrastava Roberto, Erasmo, Tim Maia e Renato & Seus Blue Caps para tocar em nome de um certo “Clube do Rock”, o mesmo do programa que Imperial sublocava de Jaci Campos na TV Tupi.
Ele também inventou Erasmo Carlos, seu assessor na Revista do Rádio, onde pilantramente plantava notas do tipo “Erasmo Carlos, o Brasil ainda vai ouvir falar muito desse rapaz”. E por falar em pilantragem... Imperial queria tirar o samba dos comunistinhas universitários e bolou uma coisa na linha “samba jovem”. Reza outra lenda de duvidosas fontes (o próprio Imperial) que Simonal ouviu a música-emblema do “movimento”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, e saiu cantando antes. E aconteceu ainda que Imperial foi parar na boca da Brigitte Bardot, que gravou “Nem Vem que Não Tem” como “Tu Veux ou Tu Veux Pás”. Quer glória maior? Pois tem. Imperial lançou Elis Regina (ainda imitando Celly Campello) e Clara Nunes.
Outros louros em sua biografia: as pornochanchadas que produziu, os programas de TV que apresentou, as lebres que abateu... Ele foi um pioneiro do uso da mídia e da polêmica na divulgação de seus “produtos”.
Entrou e saiu várias vezes do Partido Comunista, antes de ser, em 1982, o vereador mais votado do Rio de Janeiro. Em 1985, foi, sem sucesso, candidato a prefeito da cidade. Mas ninguém tira dele a glória de esculhambar o AI-5 com sua prisão, motivada por um cartão de Natal de “Feliz 69”, enviado a autoridades e ilustrado com uma foto sua sentado na privada. Em maio de 1992, Imperial podia ser visto posando de sunguinha e debaixo dos lençóis com sua nova namorada, Jana, uma amazonense de 14 anos. Em novembro do mesmo ano, morreu, aos 56 anos.

Em Simonal


Enquanto o povo do rock e da MPB trocavam farpas publicamente, o carioca Wilson Simonal abria as portas de seu show dominical da TV Record para que Os Vips cantassem jazz acompanhados do Som Três ou para que Nara Leão interpretasse “Eleanor Rigby”, dos Beatles. Cantor de voz privilegiada, Simonal representou a terceira via para o pop brasileiro no meio dos anos 60.
Filho de uma cozinheira e de um eletricista, negro e pobre, Simonal cresceu nos subúrbios cariocas e só se revelou cantor quando animava festas nos tempos de serviço militar. Para manter-se na zona norte do Rio de Janeiro e tentar a carreira de crooner, trabalhou em troca de comida e alojamento como secretário de Carlos Imperial, por meio de quem conheceu toda a “Turma da Matoso”, o pessoal do rock brasileiro e da futura jovem guarda.
Ao mesmo tempo que Imperial arranjou um contrato para Roberto Carlos na Polydor (cantando bossa nova), convenceu a Odeon a lançar Simonal cantando rock e chachachá. Mas ele só encontrou sua trilha no Beco das Garrafas fazendo bossa nova “com ginga do morro” – até hoje, os mais radicais consideram essa fase inicial, que misturava bossa com jazz de big bands, como a mais criativa de Simonal.
Em maio de 1966, Imperial reapareceu em sua vida, propondo uma canção na trilha do filme Na onda do Iê-Iê-Iê, de Renato Aragão, com uma canção composta pelo próprio empresário chamada “Mamãe Passou Açúcar em Mim”. Simonal cantou acompanhado pelos Fevers e aquele foi seu maior sucesso até então. Sabiamente, a Record o convidou para assumir seu próprio programa, Show em Simonal, já de olho em sua capacidade de harmonizar as diferenças entre roqueiros e emepebistas.
Ao mesmo tempo, o cantor reformulou seu som ao lado de um grupo, o Som Três (o pianista César Marinho, o baixista Sabá e o baterista Toninho Pinheiro), agregando ao jazz e à bossa original, grandes doses do iê-iê-iê, soul music, Sergio Mendes e boogaloo ( o jazz latinizado de Mongo Santamaría e Cal Tjader). Era a consolidação do “samba-jovem”, que acabou ganhando o rótulo de “pilantragem”.
Simonal foi a mais perfeita fusão entre influências pop e as harmonias intrincadas da música brasileira. Seu exemplo foi tão importante para a gênese do tropicalismo que Caetano Veloso batizou a canção que inscreveu no Festival de 1997 com um dos bordões que Simonal usava em seu programa:”Alegria, Alegria”.

10 de agosto de 2010

O Último Bandeirante


Não existia quem não se admirasse do que estava sendo realizado no Planalto e as monumentais construções, levada a efeito num ritmo até então desconhecido no país, eram acompanhadas, com entusiasmos, pela nação inteira. Contudo, são desconcertantes os desígnios da providência. Em face de tão encorajados acontecimentos, que assinalavam o êxito da administração, eis que, logo no inicio de 1959, um fato trágico enluta a nação. Data da tragédia: 15 de janeiro.
Haviam duas frente de trabalho: a do norte, comandada por Rui de Almeida e a do sul, comandada por ele, o Bernardo Sayão. Uma avançava de encontro com a outra para realizar a tão sonhada ligação com data marcada para 31 de janeiro de 1959. Trinta quilômetros apenas separavam as duas frentes.
Uma semana antes Sayão enviara um bilhete ao acampamento de Açailândia, dizendo: “Se não mandarem mantimentos, estamos com os dias contados”. Um avião Cessna sobrevoara a frente de trabalho, e dele caíram os pára-quedas com os mantimentos pedidos. “Estamos com os dias contados” – era assim que se jogava a vida na Belém-Brasília. Bastava que uma remessa atrasasse, para que os trabalhadores ficassem ameaçados de morte.
Ameaçado de morrer de fome, Bernardo Sayão pensava, com determinação, na construção do campo de pouso. Era o objetivo imediato, porque o presidente da República deveria ali descer no dia 31 de janeiro. Sayão estivera acampado no Estreito. Era comum já estar dormindo às 8 horas da noite. Naquele dia, porém – véspera em que ocorreria sua morte – já eram onze e meia, e ele ainda estava acordado. O prazo era, de fato, curto e daí o nervosismo. No dia seguinte seguiu para o local da ligação, onde estava em curso intenso desmatamento. Era ensurdecedor o barulho das árvores caindo. A barraca do acampamento estava à beira de um córrego, não muito perto do serviço.
Enquanto as árvores eram derrubadas, ele, Gilberto Salgueiro e Jorge Dias discutiam debaixo da barraca. Gilberto saiu, por um momento, para conferir uma informação. Nesse momento, ouviu-se um estrondo. “A árvore! A árvore!” – gritavam os trabalhadores. Jorge Dias ficara machucado no braço. A barraca fora amassada pelo peso do enorme galho desprendido. E Sayão? Ninguém viu o chefe, o comandante.
De súbito, sua figura hercúlea destacara-se entre a galharia deitada. Estava de pé, mas mortalmente ferido: uma enorme fratura exposta na perna esquerda; e o braço do mesmo lado esmigalhado. Tinha, também, o crânio fraturado. Mas continuava de pé, esvaindo-se em sangue. No local não existia médico nem qualquer tipo de socorro. Que fazer? Sayão caminhou até o tronco derrubado e, sentando-se nele, pediu que lhe descalçassem a bota do pé esquerdo. Quando conseguiram tirar lhe a bota, ele dava a impressão de que iria ter um colapso. Pediu, então, que o deitassem. Sua camisa estava empapada de sangue. Estendido na rede, deixou-se ficar quieto, os olhos semicerrados, respirando profundamente. Havia entrado em coma.
Os trabalhadores entreolharam-se, sem saber o que fazer. Às 3 horas da tarde, porém, ouviu-se o ruído do motor de um avião. Sobrevoou o local, atirando víveres. Eram os víveres que ele havia reclamado, através do seu último bilhete. Os que se encontravam em terra gritaram, tentando fazer com que o piloto compreendesse o que havia ocorrido. Por fim, alguém teve a idéia de cruzar dois paus e cobri-los com as camisas dos trabalhadores: o piloto achou estranho e reduziu a altura para observar. Viu então, um homem deitado, com a roupa vermelha de sangue. Em seguida, o avião partiu, sem que os que se encontravam em terra pudessem saber se o piloto havia compreendido aquele sinal. Mais tarde, veio um helicóptero. Com grande sacrifício, puseram Sayão no interior do aparelho e um dos auxiliares – Kelê – foi junto. Seguiram, então, para o povoado mais próximo – Açailândia. Eram 7 horas da noite. Lá em baixo, a floresta se fechara, como um só imenso lençol preto. Pouco depois, o gigante não resistiu aos ferimentos. Expirou sem um gemido. Apenas respirou mais fundo... E ficara quieto.

Biografia

Com a energia, o coleguismo, entusiasmo e a capacidade realizadora enfeixada em 1,84 m de altura e tórax de largura respeitável, Sayão mais parecia uma estátua de deus da mitologia grega, que teso como um guarda de gurita, era incapaz de se curvar a um subalterno nem si quer para ser realizado um curativo.
Bernardo Sayão Carvalho de Araújo nasceu no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, em 18 de junho de 1901. Em 1929, formou-se em Agronomia pela escola Superior de Agronomia e Medicina Veterinária de Minas Gerais.
Casou-se duas vezes. Primeiro com Lygia Pimentel, em 1925, com a qual teve duas filhas. Lygia morreu em 1935, e Sayão passou cinco anos viúvo até conhecer, em Niterói, Hilda Fontenelle Cabral. Com ela, ele teve mais quatro filhos.
Dentre os feitos, contribuiu intensamente com o plano de “Marcha para o Oeste”, e foi vice-governador de Goiás obtendo mais votos que o governador. O nome “Bernardo Sayão” faz mais jus a um grande homem do que apenas ao trecho de uma estrada da Belém-Brasília. E a partir de agora, é bom que todos saibam disso, e da nossa própria história.

Godofredo Viana: O Crisóstomo maranhense


Até 1924 Imperatriz era apenas uma vila. Embora já contasse mais de 70 anos de fundada, ainda não havia conquistado a mudança definitiva de status, como reconhecimento de sua condição de localidade detentora de alguma estrutura urbana, política, econômica e social, considerados os padrões da época nesta parte do Estado.
Foi naquele ano, em 22 de abril – um dia que lembra a data histórica da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, em 1500 – que Godofredo Viana firmou o ato oficial que mudava a categoria de Imperatriz, de vila a cidade.
Godofredo Viana era o presidente do Estado do Maranhão. (Em 1924 chamava-se presidente o cargo que hoje corresponde a governador). Nessa condição ele assinou a Lei n° 1.179, de 22 de abril de 1924. Imperatriz chegava, assim, ao último estágio que uma localidade pode atingir: a categoria de cidade.
86 anos depois, quando Imperatriz completa 158 anos de existência, Godofredo Viana mal é lembrado, exceto pelo fato de ser o nome de uma das principais ruas da cidade. Mas, quem foi Godofredo Viana?
O maranhense Godofredo Mendes Viana foi advogado, juiz, professor de Direito, político, jornalista e escritor. No campo político, foi senador (duas vezes), governador (presidente de Estado), deputado constituinte, deputado federal. Jornalista e escritor, teve vários trabalhos publicados, de livros de Direito a obras literárias (romances, novelas, poemas).
Godofredo Viana nasceu no dia 14 de junho de 1878, e Codó (outras fontes dão-no como nascido em São Luís). Era filho de dona Joaquina de Pinho Lima Mendes Viana e de Torquato Mendes Viana, magistrado e desembargador.
Estudou em São Luís, no colégio Liceu Maranhense, onde fez os cursos primário e secundário (hoje, Ensino Fundamental e Ensino Médio). O curso superior foi realizado no Estado da Bahia, na Faculdade Livre de Direito, onde se formou em dezembro de 1903, aos 25 anos. Seu brilhantismo no curso levou seus colegas a elegerem-no, por aclamação, orador da turma. O discurso de formatura, considerado “notável”, foi publicado pela imprensa do Maranhão e do Rio de Janeiro, que era, então, a capital do Brasil. Suas qualidades de orador o tornariam admirado, a ponto de ser chamado de “boca de ouro” ou “o novo CRISÓSTOMO maranhense”, uma referência a Díon Crisóstomo, orador e filósofo grego.
Em 1905, jovem ainda (27 anos) é nomeado promotor público na cidade de Alcântara (MA). Nessa cidade também seria juiz federal substituto na capital, São Luís. Exerceu essas duas funções até 1918. Em 1921, aos 43 anos, foi eleito senador pelo Maranhão.
No ano seguinte, 1922, Godofredo Viana é eleito presidente do Maranhão. Substituiu Urbano Santos, que falecera. Fica até 1926, quando assume novo presidente do Maranhão, e volta para o Senado, onde permanece até 1929. Em maio de 1933, elege-se deputado pelo Maranhão e assume, em novembro do mesmo ano, na Assembléia Nacional Constituinte, onde, em junho de 1934, é nomeado membro da Comissão de Redação da Constituinte. Já no mesmo mês apresenta os critérios para a elaboração do texto constitucional. A Constituição é promulgada no mês seguinte, em 16 de julho de 1934. E, no dia seguinte, os constituintes elegem Getúlio Vargas presidente do Brasil.
Godofredo Viana volta a se eleger deputado pelo Maranhão, em outubro de 1934. O mandato é interrompido em 1937 pelo Estado Novo, que dissolvera o Poder Legislativo em todo o País (deputados federais, estaduais e vereadores). Godofredo Viana volta às suas atividades profissionais, agora na Justiça Federal do Rio de Janeiro, que era a capital federal. Faleceu no dia 12 de agosto de 1944, no Rio de Janeiro. Antes disso, exerceu outros cargos e atividades no Maranhão e no Rio de Janeiro. Foi eleito membro da Academia Maranhense de Letras, onde ocupou a cadeira número 15.
Casado com Joviliana Mendes Viana, teve dois filhos, que também se distinguiram na vida pública e profissional: Um deles, Evandro Mendes Viana, foi senador pelo Maranhão; e o outro filho, Antônio Mendes Viana, foi diplomata.

9 de agosto de 2010

Full Metal







Eu sou um alquimista que nunca fez alquimia vivendo de especulações: o próprio teatro do absurdo em pessoa quando as coisas absurdas há muito já me parecem normais. Oh quão grande e vão é esse lixão de pensamentos bestas!


Não sei se as minhas queixas são realmente os motivos para minha vida estar do modo que não quero, mas como eles me servem de desculpa, pode ser que acabem se tornando. Meu medo é nunca achar um corpo, um braço e uma perna, e passar toda a eternidade vivendo em uma alma deslocada como todo bom Vate louco o é!


Meus irmão são todos almas sem corpos vagueando por entre o materialismo das veias que liberam xilema e floema, enquanto nada fode, numa armadura de aço, o selo de sangue é a alma.


Respeitando o principio de conservação das massas e fazendo trocas equivalentes que não me levam a nada, o nada pouco a pouco, começa a me parecer um lar bem agradável, enquanto eu acabo de me convencer que o querer é uma dádiva amaldiçoada.


Não ouvir a voz de ninguém, nunca mais ver ninguém, não desejar mais nada, lavar roupas e não vê-las secarem. Como todo bom medroso mágico faz, eu brinco de malabares, mas quando o grande truque jaz, nada de tirar o maldita coelho da cartola.


Totalmente inerte ao espetáculo que se sucede no céu, eu não faço nada! Vendo a vida se esvair, a única coisa que faço é continuar escrevendo cartas à medida que vou me distanciando de tudo o que quero porque elas sempre trazem consigo um veneno para meu coração.


Um dos meus temores é sempre ficar andando nessa linha que sempre insiste em fazer círculos em volta do meu próprio eixo. Adestrado pelo meio social igual a um elefante subordinado a cadeira, não vejo alternativa melhor do que continuar me resguardando no meu velho lugar, onde quimeras não me atingem e os omunculus têm almas... Enquanto isso, jaz o qüinquagésimo primeiro episódio.


Ricardo Magno

Bilhar


A mecânica do bilhar é igual à mecânica da vida: nos movimentos das bolas se faz o jogo e na mesma jogada que dá errado pra um, pode dá certo para o outro. E isto se chama jogar em cima dos erros alheios! 

A matemática do bilhar é análoga à matemática da vida: diante de uma estatística incomensurável de probabilidades, pode ser que a sua bola caia. A lógica do bilhar é semelhante à lógica da vida: às vezes um jogo quase ganho ainda pode ser perdido! Bola na boca da caçapa nem sempre é bola garantida!


Uma mesa de bilhar é filosófica, porque se ela não pode filosofar, ela nos faz sermos filósofos. Em sua volta, tudo é pura filosofia! Oriundo da mesma regra física que faz a bola não andar é a que a põe em movimento, enquanto o tapete verde mais parece um campo de futebol, todas as bolas rolam à medida que se desenrola suas vidas; porque, mais cedo ou mais tarde, o destino inevitável é o buraco.


É quando a imponente, prepotente e aparente invulnerável bola branca começa a girar que o mundo gira com ela através de uma força centrípeta, centrifuga que somente deus há de explicar. É quando as mãos do jogador as violenta com o taco, que as perspectivas começam a nos escravizar. É que, com a ajuda de Fernando Pessoa (que deus salve este grande homem que há muito eu tenho admirado!) pude perceber que é o movimento que se move no movimento da bola, pois a bola branca é apenas uma bola. Então, escravo de minhas perspectivas, fico sempre esperando que o movimento se desenrole sem nunca tê-lo vivenciado verdadeiramente, pois David Hume, neste caso, foi o primeiro a descobrir a grande verdade


As estratégias do bilhar são idênticas às estratégias da vida: uns só jogam perseguindo as bolas de números mais altos enquanto outros preferem ficar em surdina somente escondendo o bolão. O anti-jogo, aqui como em qualquer outro lugar, também é uma regra que nasceu pra ser violada, e não é nem preciso meter o dedo nos olhos pra fazer o seu rival cegar. Uma bela brincadeira sem graça enquanto horas passam jogando sinuca algumas pessoas esquecem que ainda estão vivas!


A mesa de sinuca só não é perfeita porque nasceu quadrada. Bilhar e filosofia, bilhar é poesia. E nisto, algum valor se acha!


Ricardo Magno

Bacamarte celestial

“Na ponta da tua caneta tem...” Esta é a frase mais difícil da minha vida. Talvez por ela não ser minha, talvez por ela ser a meu respeito, talvez por ela se tratar de uma bela homenagem.


O que irá vencer no final? A ambição ou a comodidade? Enquanto cruzar meus braços e não fizer nada, vence a comodidade. Isso é o que diz a lei do menor esforço.


No universo performático dos códigos binários, ultrapassando as fronteiras maleáveis da cibercomunicação, só preciso de um maldito hipertexto para expor meu coração.


Acreditar que o impossível é viável, às vezes é a melhor forma de se sobrepor ao tédio à medida que o palhaço não conhece a si mesmo por estar sempre fazendo graça.


Tanto mar para poucos barcos, tanta ventania para pouca chuva enquanto o pornô se adequa bem a esse novo e velho ordinário tempo.
A rigidez do ferro está me matando, pois diante da incapacidade de ter aumenta o querer. Ter o teu trono, teus castelos e teus criados para confirmar que um rei nunca perde a majestade.


... No entanto, dentro de minha caneta, levo a alma. E através da ponta, exprimo e espremo tudo o que sinto, chegando até a ressuscitar partes mortas.



Ricardo Magno

3 de agosto de 2010

A meu modo e a marca da vileza dos otários

Quando comecei a ler literatura, filosofia, psicologia e as demais ciências e artes afins, nada me pareceu mais intrigante do que a identificação de pensamentos, idéias e conflitos, ao longo das épocas, que também habitavam dentro de mim.

Desde a pré-história aos pré-socráticos e pousando nos filósofos da atualidade ao encadeamento das grandes revoluções históricas, em cada data e momento que me dediquei a estudar, analisar acabei identificando sensações e emoções originadas em tais épocas que até agora ainda existem em mim, me levando a comprovar a experiência de vida autêntica do meu querido Walter Benjamin.

Do conflito barroco entre o amor e o sexo, brancos e negros, o sagrado e o profano. O sentimentalismo exacerbado e idealizado da impossível realidade das paixões ultra-românticos dos jovens homens sofredores de outros tempos, aos guetos e redutos habitados pelos seres compostos pela carniça de um naturalismo qualquer. Em todas as tendências pude me assemelhar com um pensamento da época.

Existindo em um momento histórico onde as raízes não têm lugar e a vivencia do choque eletrocuta a vida de todos; as moving roots imperam em uma humanidade nada humana que põe em voga o estilo de vida cosmopolita ao jurar de pés juntos que o homem foi à lua e, no entanto, mal consegue imergir no aprofundamento da própria alma; fazendo o apelo se tornar mais forte devido os avanços tecnológicos dos meios de transporte e comunicação.

Ao tentar estabelecer “tópicos” (os marcadores) e reorganizar minha “obra” de uma maneira que fosse ou aparentasse ser mais lógica, logo pude perceber que só havia criado endereços para casas em que ninguém habitava. Daí iniciou-se o meu conflito.

Mas se for verdade que deus não dá um problema sem solução, foi então que pude perceber que a crise que me assolava fazia parte da nova ordem do mundo das idéias em meio a todo esse “novo helenismo”. Em meio à “repetição” contemporânea dessa conjuntura holística pós-moderna, fica difícil um “escritor” se classificar com uma única tendência de escola literária. Pois hoje, seria descabido tentar organizar nosso passado dentro dos livros desta forma.

As tendências e inclinações sempre irão existir, mas nada que se aproxime de uma organização bem estabelecida e sólida quanto tão linear ela pareça ser em outras épocas como em nossas enciclopédias de história.

Por isso, ainda na busca de uma “certa coerência incerta” que meus textos devem provocar, cada marcador, por assim dizer, não é um tema bem definido e confiável do que possa vir a ser cada conglomerado de frases contidas neles. Eles são apenas endereços para um carteiro cego.
 
Vez ou outra, não estranhem se um dos “manuscritos” ultrapassarem um dos rótulos de suas “fronteiras maleáveis”, e, acabarem sendo encontrados no inimaginável, inclassificável. Pois a mais pura verdade é que ambos, em diferentes classes, mantêm-se constantemente interligados contrapondo-se ao método cartesiano de análise e fazendo jus à Teoria do Pensamento Complexo de abraçar o todo como Edgar Morin sempre o faz.

Correlação ao meu processo de criação, os parnasianos estavam errados com o que Adorno há muito já havia classificado como A Primazia do Todo em Relação ao Indivíduo. Mais me assemelhando aos simbolistas, opto, inconscientemente, portanto, contra a minha vontade, em deixar ao menos a priori, de lado essa pífia e tão vã busca pelo guia de fórmulas do sucesso pré-fabricado e, num ato artístico e literário quase suicida, fazer minha “obra” se igualar ao processo de criação simbolista, dadaísta e surrealista para somente depois ir buscar saber o que as pessoas acham.

E esta foi à forma que achei, a fórmula que criei para tentar, ou, ao menos não me equiparar com a marca da vileza dos otários que predomina por toda grande parte da sociedade.



Ricardo Magno